Montanário

Não são raras as vezes em que se associa um autor a uma determinada geografia, o que é raro, isso sim, é encontrar uma proximidade tão sentida como a de Eduardo Jorge Duarte à Serra de Monchique, «a serra azulada ao sul da imaginação» – palavras suas, que vão ao encontro de outras já distantes, do seu conterrâneo Manuel do Nascimento. É esta serra que em Montanário marca a vida do escritor e geógrafo monchiquense, a serra das imponentes montanhas da Fóia e da Picota, heroínas aqui omnipresentes, como a senhora araucária, a árvore que entre as duas domina a vila num demorado percurso até um dia, quem sabe, atingir o céu.

Leitor de Faulkner – como não reparar logo a abrir o livro numa das dedicatórias, e como ignorar as referências ao longo das páginas? –, mas também leitor de tantos outros escritores marcados pelo génio e pela sabedoria, Eduardo Jorge Duarte mostra-nos como soube beber com os melhores para ainda tão novo estar perto deles. Tem mesmo uma entrada curiosa, poucos dias antes do anúncio do Nobel para Alice Munro que deixou o mundo de boca aberta pelo desconhecimento. Nessa entrada refere-se com a maior naturalidade à contista canadiana, fala-nos dos seus ensinamentos, assim como noutras alturas nos fala dos de Calvino, Carver ou Nabokov.

Montanário é o primeiro livro de um grande escritor. Lemos os seus textos com espanto, mesmo com algum assombramento. Como se os olhássemos de baixo. E eles lá bem em cima, dominadores, sábios, desarmantes, verdadeiros e, ao mesmo tempo, tão próximos de cada um de nós. Como a serra do autor, «ígnea e imbatível», prometem ficar para a eternidade.

 

Autor: Eduardo Jorge Duarte

Género: Narrativa

Páginas: 180