Paulo Rosa com um tributo a Monchique

Texto de Américo Telo sobre o livro de poesia «Um Tributo a Monchique» (ed. On y va), de Paulo Rosa; publicado no «Jornal de Monchique» (Outubro de 2022).

 

24 de Setembro, 16 horas, Auditório da Cooperativa Agrícola de Monchique.

Em mais uma edição da editora On y va, gerida pelo conterrâneo António Manuel Venda, também ele escritor, Paulo Rosa apresentou-nos, depois de «O Perfume da Esteva», de 2019, «Um tributo a Monchique», acompanhado por dois expoentes da escrita no Algarve, José Alberto Quaresma, autor da biografia de Manuel Teixeira Gomes, e José Carlos Barros, o mais recente vencedor do «Prémio LeYa».

Num discurso literário poético, assinala Paulo Rosa, o seu «Um Tributo a Monchique» almeja ser uma homenagem às suas raízes, «que nos mostram em cada momento onde pertencemos», e «um olhar, algo deslumbrado, sobre esse lugar primordial». O autor justifica a sua substância, assumindo como que uma definição antropológico-etnográfica: «O que ora se oferece é o resultado de um esforço baseado na consciência do dever de ajudar a preservar os termos, conceitos, modos de fazer, situações e personagens do teatro da vida local que a decorrência do tempo e mudança dos hábitos, valores e paradigmas ameaçam riscar da memória.» E conclui que «a vida é essencialmente uma viagem no pó do espaço e do tempo», frisando que este seu tributo é um imperativo para que «se faça uma homenagem à fonte do pó».

Num conjunto de 71 poemas, o livro exalta a Serra de Monchique e a Fóia, sem deixar de nos conduzir por uma viagem que passa pelo Plátano do Barranco dos Pisões, pelo Largo dos Chorões, pelas Caldas de Monchique, pela Igreja Matriz e pelo Convento de Nossa Senhora do Desterro. É uma viagem em que a natureza deslumbra o poeta, que nos aponta também para que não deixemos de reparar no medronho, nos cogumelos, nas águias-de-bonelli, no lince-ibérico que talvez possa ser avistado pese embora o drama da ameaça de extinção. Pelo meio, a viagem é marcada pela lembrança de algumas personagens locais, como o senhor Fernando da sapataria, o vizinho agricultor, que tem 90 anos, o Ti Manel Mil-Homens, o Zé Luís, o Zé do Corgo do Vale, o Ventura e o Silva Carriço, sem esquecer o senhor Torrinha, caçador que levava o chumbinho todo para casa.

Caminhando pelo pontuar de substâncias e memórias, é na «Ode à vila» que Paulo Rosa nos conduz, como que numa síntese final de chegada, regaço a que ficamos «presos por laços emocionais, quais raízes que nos mostram em cada momento onde pertencemos». Raízes essas que continuam presas a um tempo imemorial de artes, de saberes, das produções e tradições, dos cambiantes da natureza serrenha e do seu património, que o autor exalta com mestria literária, sugerindo-nos que este tributo seja um poema que depois de lido apeteça ser relido.

Uma apreciação final do evento de apresentação deste tributo está expressa nas redes sociais, nas palavras do vereador Humberto Sério, que assinala ter sido «um grande momento que Monchique viveu».

[Texto: Américo Telo]