Vento do Fim – Os nós no fio de água
O avô foi um leitor iluminado. Ele dizia-se um professor de filosofia de pavio curto e escritor. O pai fora um talentoso fotógrafo amador. Ele era um pintor diplomado, de tela formatada e poeta. Às sextas-feiras, manhã cedo, sentava-se sempre no mesmo banco. Sentado, viajava com o olhar para reconhecer e assinalar o seu mundo. Com alguma frequência escondia-se por detrás do tempo. Sempre fora um incorrigível desenhador de sombras e um adivinhador de dramas potenciais. Defendia a existência de uma conspiração contra si que era liderada pela vida e pelo fado e, como não era homem de fé, acreditava que essa teia o haveria de envolver até conseguir roubar-lhe todas as palavras. E perguntava-se: vale a pena regressar aos lugares onde os vestígios da felicidade nos magoam mais do que uma queda desamparada no vazio? Que recompensa se pode esperar de um regresso que desfia, de forma dolorosa, os farrapos de nós? Quando parou, disse apenas: «Até amanhã.» Uma despedida para sempre: era impossível desfazer os nós naquele fio de água.
