Uma porta aberta para um livro
Texto de António Manuel Venda, escritor, sobre «Tempo» (ed. On y va), de Ana Sofia Brito; suporte da intervenção em Albufeira na apresentação do livro, a 22 de Fevereiro de 2025 (Restaurante Cêpa Velha, Tertúlia Literária de Roberto Leandro)
Lembro-me de ouvir o poema «Tempo», dito pela própria autora. Num vídeo. Devo assinalar que fiquei maravilhado, e devo confessar que depois, no que tentei descobrir sobre o poema, fiquei a saber que poderia ser uma letra para uma canção. Não me pareceu que pudesse ficar por aí. E digo ficar por aí com muitas aspas, porque ponho-me a imaginar o caminho maravilhoso, sem tempo, interminável, que uma canção a partir deste poema poderá fazer. Ou seja, este tempo, este poema, seria, na minha cabeça há uns meses, a porta para se entrar num livro. Foi o que propus à Sofia, sem estas palavras, usando outras, e percebi, como aliás já desconfiava, que havia mais poemas. Não muitos, dizia a Sofia. Alguns poemas. E eu senti que podíamos mesmo abrir a porta. Depois a Sofia quis juntar algumas letras de canções. Como que a fechar o círculo. Ou a porta. Descobri que havia mais hipóteses de canções. Queremos muito ouvi-las. Acho que que posso falar no plural, neste caso. Estou certo de que ouviremos algumas. E espero que uma seja a canção do tempo, que imagino, já o disse, a ouvir-se para a eternidade.
A Sofia, a propósito do tempo – e aqui o tempo título deste livro –, disse-me que não pensa muito nisso, no tempo. Fala do tempo como a distância entre algo que acontece e a sua memória. E com isso diz-nos muito deste seu livro. A distância de algo que fica. A memória. Não se trata tanto do tempo de viver, de que falava Clarice Lispector, atribuindo à sua existência uma significação oculta que a ultrapassava. Como aliás ultrapassa qualquer de nós. Clarice Lispector dizia reunir em si diversos tempos, o passado, o presente e o futuro. Falava do tempo que lateja no tique-taque dos relógios. A Sofia tem outras palavras, e priviligia o olhar sobre os acontecimentos que a memória recupera. Embora não ignore o tempo de viver. Quem poderia ignorá-lo? Encontramos esse tempo noutros escritos seus. E também em algumas declarações, de entrevistas, de apresentações de livros. Nos escritos, claramente, surge num texto do livro «A Menina Dança em Dezembro», onde diz que envelhecer assusta-a, mas porque quando envelhecer não terá consigo os mais velhos. É um pequeno texto que nos mostra tanto do mundo, de um livro que, regressando agora à porta para os livros, abre com outro pequeno texto, dos mais maravilhosos, tristes (e acrescento assustadores) que li nos últimos anos. Eu não seria capaz, nunca, de escrevê-lo, por mais que o tivesse imaginado. Como tantos outros da Sofia. Não seria capaz de escrevê-los. Textos em prosa e poemas. Sobretudo prosa. O muro que sempre nos aparece pela frente quando escrevemos é demasiado alto para mim aqui. E é apenas um pequeno muro para a Sofia. Sobre o qual ela salta, de uma forma natural, até acrobática. O mesmo muro onde eu páro. E onde por vezes bato com a cabeça. Ou encosto as mãos.
A Sofia tem quatro livros publicados. E mais para publicar. Um em breve. Neste «Tempo» noto uma descoberta. Uma descoberta feita por ela, provavelmente sem dar por isso. Ou antes, involuntária. Não sei. Não lhe perguntei. Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral, onde estiverem, saberão do que é que eu estou a falar. Deveria colocar aqui umas aspas enormes, porque isso de saber do que é que eu estou a falar é uma frase quase histórica, que deve sempre ser creditada a uma figura do futebol, o senhor Octávio Machado, que em tempos teve um boneco na televisão chamado Octávio Malvado.
Permitam-me um aparte: não imagino a Sofia a dizer esta frase. Alguém que a conhece imagina? A Sofia diz-nos tudo. É importante dizermos tudo. Sendo ou não capazes de saltar os muros quando escrevemos. Nunca ouviremos à Sofia «vocês sabem do que é que eu estou a falar».
Regresso à descoberta. A segurança. A descoberta da segurança. Para mim, acontece neste livro à Sofia. Ela própria escreve sobre isso. E eu lembro-me, mesmo que agora não consiga escrever grande coisa a não ser para mim, lembro-me de como aconteceu comigo. De ir pela escrita e já nada me importar do que poderiam apontar-me, ou do que tinham apontado. Mas de naturalmente conseguir absorver o que poderia ajudar-me. Outros tempos. Lembro-me disso. A marca dessa descoberta, na Sofia, está bem clara no poema «Palavras», deste livro «Tempo». É uma marca que aliás passa por outras páginas do livro. A Sofia a ir pela escrita. Trago alguns dos versos do poema: «Eu vejo nas palavras a/ causa do infortúnio./ Palavras e mais palavras/ numa tômbola louca/ em busca da ordem/ que não lhes sei dar./ Palavras plantando vermelhidão/ no contorno das minhas olheiras. (…) Sabem bem que me atiram ao pior/ dos infernos; pior é o vazio de uma folha escrita/ do que a esperança da folha em branco./ Ficai-vos pelos poetas e deixai-me em paz./ Plantai nos poetas as insónias, e as olheiras,/ e os cansaços, e as voltas na cama, e o inferno inteiro./ São eles que, por vós, se entregam ao que for./ Em mim não podeis mais depositar/ a falsa esperança. (…) As palavras sustentam o mundo, dizem./ Ficai-vos por eles, pelos poetas,/ deixai-me em paz/ com os meus erros ortográficos,/ com as minhas concordâncias discordantes,/ com as rimas pobres e previsíveis,/ as métricas mal calculadas,/ e alegorias e metáforas forçadas e sem sentido.»
Eu não vejo nada disto na escrita da Sofia. Mas vejo a descoberta. A libertação. A coragem de fazer o seu caminho. Segura de si e do que nos quer dizer. Saltando muros. Enfrentando os monstros que for preciso nem que seja para escrever um parágrafo, ou um verso. Marcando as distâncias da memória. E também quando não há distância. Quando olha e escreve. E quando sonha e aponta ao acordar para depois passar a limpo cada sonho, ou reescrevê-lo.
Uma última nota. A Sofia lê muito. Livros de reis e de rainhas da literatura de que gostamos mais ou gostamos menos, ou que preferimos ignorar, ou que queremos ir descobrir. Tantas coisas. Isso, sabe-se, é importante na escrita. Seguramente a Sofia traz muito para o que é como escritora desse amor que tem à leitura. A sua descoberta, de que falei, pode ter sido muito por aí. Mas há uma coisa que acredito que a ajudou tanto, ou mais até. A Sofia a dizer poesia. Fazendo parte do restrito grupo de pessoas mais entusiasmantes a dizer poesia em Portugal, passando por tantos poemas e poetas, pergunto-me: quanto não terá dessa aventura que nos encanta tirado a Sofia para a escritora maravilhosa que hoje é?
