Os mapas e a emoção

Texto de Carlos Pereira da Silva, professor associado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (Departamento de Geografia e Planeamento Regional). Suporte da apresentação do livro de poesia «Primeira Lei da Geografia», de Eduardo Jorge Duarte, na tarde de 8 de Novembro, em Lisboa (FCSH, antiga sala de aulas do autor, a sala 78, agora sala C111).  

 

Quero em primeiro lugar dar as boas-vindas a todos a esta casa, que é também a casa de muitos de vós. Agradeço a vossa presença num dia de encontros e reencontros.

Tentarei ser breve, pois hoje, aqui, o que verdadeiramente interessa é escutar o Eduardo e, principalmente, conversar com ele.

Ao longo desta intervenção irei repetir muitas vezes duas palavras: obrigado e emoção.

Um primeiro obrigado ao António Manuel Venda, editor de On y va. Um herói! Ser editor é quase ser um D. Quixote dos tempos modernos. Esta pequena editora, em tamanho, mas não em ambição, apresenta-se com «uma imagem associada a um pequeno barco que segue pela água com o à-vontade de um leão robusto e altivo a caminhar em terra firme».

Nela, os «livros publicados serão motivo de orgulho para todas as pessoas que com eles tenham a ver: seja os autores, que tudo começam com a sua escrita, seja os leitores». Obrigado, António, pela coragem e perseverança, sem as quais não estaríamos por certo aqui! Visitem a editora!

Um obrigado ao Eduardo, por nos juntar.

Quando ele me pediu para fazer esta apresentação, confesso que senti gratidão, orgulho pelo respeito e pela amizade que tenho por ele. Depois é que foi pior… «Onde é que te foste meter? Porque aceitaste?» Passaram-se dias em que me senti como no Barranco do Demo, com ou sem passadiços, numa mistura de entusiasmo, admiração e suores frios, chegando mesmo a dizer-lhe: «Não achas que era melhor ser outra pessoa?»

O Eduardo, que insiste em me chamar professor, ao contrário de mim que não consigo pensar nele como estudante, é uma das pessoas que passam na nossa vida e que a fazem valer a pena.

Em momentos de algum desalento, ao longo de mais de trinta anos na universidade, ele é uma das memórias recorrentes para perceber que não terei feito tudo mal. Existem alguns Eduardos. Obrigado também por seres esse farol!

Este livro intitula-se a «Primeira Lei da Geografia». A lei foi criada por Waldo Tobler em 1970, que enuncia: «Todas as coisas estão relacionadas entre si, mas as coisas mais próximas estão mais relacionadas que as coisas mais distantes.»

O Eduardo tem um amor ímpar à Geografia. Eu gosto de Geografia, mas não com esta paixão. Obrigado por isso também!

*

Este é um livro que combina poesia, ciência, memória e afeto. Cada verso tem emoção e razão. Tanta emoção que me toldava muitas vezes a razão e que me comovia verdadeiramente, a ponto de me questionar se percebia toda a profundidade do que estava a ler.

Gostava, por isso, de conseguir partilhar a beleza deste livro e como me tocou – a forma como ele faz da Geografia algo vivo, sentido e poético.

Não é apenas uma obra sobre Geografia, lugares, conceitos; é um convite a sentir o espaço, a perceber a relação entre território, quem o habita, quem o ama, e a descobrir, sobretudo, que a geografia também se lê com emoção.

Há quatro aspetos que destaco:

  1. A Geografia como poesia e a poesia como forma de ver o espaço

Este é um livro onde o espaço se transforma em sentimento, onde cada verso parece nascer do encontro entre a ciência e a sensibilidade, entre o olhar do geógrafo e o coração do poeta.

A Geografia como território de emoção. As palavras, aqui, são coordenadas de afetos; os poemas, pequenas cartografias do humano.

A «primeira lei da geografia», que Waldo Tobler formulou para explicar a relação entre as coisas próximas, ganha neste livro uma nova dimensão – a da proximidade entre as pessoas, os lugares e a memória.

Tudo neste livro está relacionado, sim, mas sobretudo porque tudo é vivido com intensidade e gratidão.

Tobler é aqui reinterpretado não apenas como princípio científico, mas como metáfora das relações humanas e afetivas.

O Eduardo usa aqui a poesia para dissolver as fronteiras entre o espaço físico e o espaço emocional. Cada poema é como um mapa – não de coordenadas, mas de memórias, afetos e lugares habitados pela experiência.

A Geografia deixa de ser apenas uma ciência do espaço, para se tornar uma geografia da presença, onde a paisagem é sentida antes de ser medida.

  1. Monchique: o território do coração

A Serra dos Dois Dinossauros Adormecidos.

O amor, o respeito e a gratidão por Monchique é um Norte, embora fique a Sul, («Todo o Norte tem um Sul nas costas») constituem uma coordenada central do Eduardo em toda a sua obra, e aqui também está presente.

Monchique ergue-se como um vértice (geodésico) simbólico e afetivo, o lugar onde a geografia se torna íntima.

Surge como geografia vivida – uma montanha que respira, um refúgio de identidade.
O relevo, as fontes, as vertentes e os barrancos transformam-se em imagens (poéticas) que condensam o vínculo entre o ser humano e o território. É lugar de origem e de retorno, onde a paisagem natural se confunde com o sentimento de pertença.

A paisagem, a memória, surgem como matéria poética onde se procura restituir a dignidade do lugar e das pessoas que o habitam.

Monchique não é apenas cenário, mas presença viva: fonte de identidade, de abrigo e de pertença. Ao celebrar a sua terra, o Eduardo transforma o íntimo em universal e oferece-nos uma poesia que honra raízes, reconhece fragilidades e exalta a força silenciosa do quotidiano serrano.

O amor à terra natal é uma forma de resistência e de reconhecimento do valor do interior – um tema caro à geografia humana contemporânea.

  1. Entre o departamento e o verso: a gratidão académica e humana

Para mim, um dos aspetos mais tocantes do livro é a gratidão explícita do Eduardo à Geografia e ao Departamento de Geografia e Planeamento Regional (DGPR).

Essa gratidão não é apenas institucional, mas epistemológica: reconhece que o olhar geográfico, moldado pela ciência e pelo ensino, alimentou a sua sensibilidade poética.

Nós, professores, todos sem exceção, a quem o Eduardo generosamente agradece no livro, podemos reconhecer poemas que nos parecem dedicados, influenciados pelas aulas e pelos conhecimentos que adquiriu com eles. Obrigado por isso!

O DGPR foi o estímulo, simbolicamente o espaço onde a técnica e a emoção se uniram – onde o mapa se abre ao verso e o território ao sentimento. O Eduardo mostra que é possível que a formação técnica e académica não reprima o lirismo, mas o amplifique, tornando o conhecimento do espaço também um exercício de afeto e pertença.

  1. Uma poética da proximidade

Em termos estéticos, «Primeira Lei da Geografia» é um livro sobre proximidade – entre pessoas, entre lugares, entre ciência e arte. Cada poema cumpre a lei de Tobler: os versos que estão próximos influenciam-se mutuamente, assim como o autor é moldado pelos lugares e pelas pessoas que o cercam.

O Eduardo propõe uma poética que não separa o sentir do compreender. A sua Geografia é humana, complementar de uma física, concreta e ética, porque reconhece que conhecer o espaço é também cuidar dele.

Os poemas do livro percorrem temas centrais da geografia – o espaço, o território, a escala, a paisagem, o ambiente –, sempre filtrados pela sua visão e pela experiência.

Em «O fim do campo», reflete sobre as transformações melancólicas e irreversíveis do mundo rural e as tensões entre tradição e modernidade.

Em «Ecoturismo», questiona as contradições entre conservação e exploração, revelando as fragilidades que surgem quando a natureza se torna produto.

No poema «Mapa», explora a ideia de representação e orientação, transformando linhas e coordenadas em metáforas de identidade e pertença.

Já em «Deriva litoral», convoca os movimentos da costa – erosão, avanço, recuo – para pensar o tempo, a mudança e a incerteza do lugar habitado.

«Para teres paz em acreção a Barlamar,

Verás que a Sotamar o mar te leva a vida em erosão»

 

Conclusão

«Primeira Lei da Geografia»  é exemplar de como a poesia pode traduzir o espírito da Geografia: o estudo do espaço, das relações e das ligações invisíveis que unem o mundo.

Coincidência: a exposição do Centenário da Professora Raquel Soeiro de Brito, patente na NOVA/ FCSH, é precursora desta forma antropológica e imagética de pensar a Geografia que o Eduardo tão bem aprendeu. Os poemas do Eduardo são fotografias de paisagens, de quotidianos, de uma investigação participada. O livro é também uma bonita homenagem a ela e à sua Geografia.

Obrigado, Eduardo, por lembrares que a Geografia não está só nos mapas – está também na emoção!

Obrigado por esta cartografia da memória e da pertença, onde a emoção é verdadeiramente a primeira lei.

Obrigado por nos lembrares que para nós, geógrafos, «caminhar é ler com as pernas»!

[Texto: Carlos Pereira da Silva]