Premeditado e passional
Texto de Eduardo Jorge Duarte, autor do livro de poesia «Primeira Lei da Geografia» (ed. On y va); lido na tarde de 8 de Novembro na apresentação em Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (Departamento de Geografia e Planeamento Regional, na antiga sala de aulas do autor, a sala 78, agora sala C111)
Caros professores, caros colegas, caros amigos,
não era para estar aqui hoje. Não na condição de geógrafo e muito menos na condição de aspirante a poeta. Mas vinte e cinco anos depois de ter entrado como caloiro e por engano numa aula de Geografia Humana de Portugal do terceiro ano, participando até no tema que o professor Jorge Umbelino lecionava, percebo por que razão foi um novo acaso do destino a trazer-me de volta a esta sala. Hoje, o que faria sentido seria estar aqui diante de professores, colegas e amigos a falar de coisas eventualmente mais interessantes até para os ouvidos destas paredes como limiares de índices espectrais na definição de cartas de severidade de incêndios florestais, metodologias de definição de áreas com riscos de erosão para inclusão nas cartas municipais da Reserva Ecológica Nacional ou o impacto das alterações climáticas nas Gotas Frias, hoje mais conhecidas por Depressões Instaladas em Níveis de Altitude.
Parece que o princípio foi uma era geológica atrás. Mas não. E no entanto, se tudo tivesse começado agora, não estaria aqui, certamente, porque a liberdade é hoje e cada vez mais um exercício de quem pode pagar por ela, pelo que não seria possível a um algarvio da Serra de Monchique, neto de cavadores analfabetos, filho de um pedreiro e de uma cozinheira, ambos assistentes operacionais de uma câmara municipal, instalar-se na cidade que quis e na faculdade que quis para tirar o curso que quis, depois de instigado pela curiosidade provocada pela recorrência de incêndios ou pela passagem de uma gota fria na sua terra, em outubro de 1997.
E, ainda assim, pese embora essa evidência, tenho a sensação de que nunca saí daqui, fazendo a vontade à cadeira que deixei nesta sala com o meu nome nas costas, mantendo-se essa inscrição, julgo eu, até depois dos tempos em que frequentei o curso. Essa certeza de permanência ganha ainda mais força, sobretudo pelas memórias e pelos ensinamentos que aqui se formaram, ao arrepio de que cada um de nós é feito de tempo, mas também, e como não poderia deixar de ser, de espaço, e que a arqueologia das nossas melhores memórias, no seu constante diálogo entre passado e presente, é como a pedra dura que resiste à meteorização, colocando em evidência as palavras de José Saramago sobre o artista plástico David de Almeida quando diz que a arqueologia a que aludo «é o trânsito do ser no tempo e a sua passagem pelos espaços».
A edição deste livro, tal como se apresenta, sob a égide da Primeira Lei da Geografia de Waldo Tobler, que ensina que «todas as coisas estão relacionadas entre si, mas coisas próximas estão mais relacionadas que coisas distantes», é também ela uma consequência poética e, sobretudo, afetiva de tudo quanto aprendi com os meus professores. Submeter esta lei ao teste da poesia é, desde logo, uma prova, no sentido mais positivista, da sua irrefutabilidade. Se lhe substituirmos o espaço, dimensão primordial em que se cumpre, por outra dimensão da ordem do imaterial ou do artístico, a lei continua a fazer sentido: estamos sempre mais relacionados com os autores que lemos, com os músicos que ouvimos e com os cineastas que realizam os filmes que vemos. No domínio concreto da poesia, essa lei é ainda mais evidente quando García Lorca, recusando a tolice intrínseca aos nacionalismos, confessava ser espanhol por inteiro e que lhe seria impossível viver fora dos seus limites geográficos, mas que se sentia mais próximo de um chinês bom do que de um espanhol mau.
Estes poemas resultam de um esforço de promover a oclusão de duas superfícies frontais aparentemente sem qualquer relação: a geografia e a poesia. Em cada verso está um exercício que procura refletir tanto de lírico como de científico, na medida em que o método empregue é causa e consequência de um modo criativo de propor interrogações transportando para a lira tudo quanto aprendi entre 2004, ano em que terminei a licenciatura, e os dias de hoje, nomeadamente:
a) que os versos, como cada um de nós, têm terra, declives, vales, ravinas e planaltos, têm rios que levam e mares que trazem, têm suões e têm nortadas, têm vales depressionários e vales de lágrimas; têm um conjunto de formas expressivas que resultam de um jogo de forças telúricas, de abalos, de cisalhamentos, de borrascas e de intempéries a que uma existência indelevelmente se sujeita;
b) que a aparente estabilidade visível à superfície de um poema nem sempre corresponde à certos estados de alma noutros níveis de altitude; isto é, nem sempre o autor e o sujeito poético coincidem: onde um é subsidente, o outro é ascendente;
c) que a poesia é uma forma de deteção remota que se presta a comprimentos de onda sensíveis e indecifráveis pelos espectros utilitaristas que cada vez mais impõem a crueza dos números à força das palavras;
d) que cada pessoa é um território cosmopolita de migrações de si para si, mas também de movimentos pendulares que resultam da nossa inevitável relação com o outro, e que cada eu é não só o saldo natural dos eus que nascem e morrem dentro de nós, mas também dos que entram e partem em momentos concretos das nossas vidas;
e) que, como diria o saudoso professor Henrique Souto, «isto está mau e vai ficar pior».
Por isso, agradeço o modo como essa transmissão do saber me mudou e continua a mudar (caso contrário, não seria conhecimento, na medida em que este só o é quando nos transforma, conforme ensina Javier Cercas, um autor muito da minha predileção). E é este conhecimento que se materializou nos poemas que submeto hoje aqui, diante de vós, do mesmo modo que no passado me submeti à vossa a avaliação.
Ciente da importância do método de trabalho de um geógrafo e pedindo desde já perdão pela ousadia arrogante, gostaria de acrescentar que a minha poesia tem a intenção de levar a língua a fazer trabalho de campo, criando um território de resistência a uma certa forma de gentrificação linguística, em que frases profundas, cifradas, retiradas de solos exaustos e ininteligíveis, não conseguem tomar o pulso aos nossos descampados, aos nossos horizontes caleidoscópicos, aos nossos abismos e à projeção da nossa cartografia existencial, deixando-nos tantas vezes ficar na preguiça relutante e pelo mero prazer do texto. Pese embora reconheça a importância fundamental dada ao artifício da palavra na criação literária, rejeito a exclusividade do filão. Mais do que imagem, a poesia deve propor-se a ser paisagem. Nessa medida, tal como a geografia, a poesia traz dentro de si uma matriz transformadora em que, ajudando a criar uma consciência crítica de si mesmo a cada um de nós, remete para novas propostas de um mundo que só o é pela aceitação da diversidade partilhada com o nosso semelhante.
Mas mais importante do que isso: este livro é um livro cuja linguagem pretende ser radical e, para isso, fixo-me no étimo da palavra, procurando manter inexpugnável o vínculo fiel às minhas raízes: a Monchique, terra onde nasci e que configura a minha geodesia existencial, à classe trabalhadora, de onde provenho, à escola pública, que carregou no botão de subida no elevador social, e aos meus professores. Começando pelos presentes e sem esquecer os ausentes, nomeadamente uma certa professora de português em Monchique e uma certa professora de geografia em Portimão, todos eles me ensinaram que a melhor resposta para as dúvidas começa por saber fazer melhores perguntas. Nessas raízes incluo ainda os autores que li e nos quais, perdido, me posso sempre encontrar, verdadeiros mestres da geografia, ciência que me deu a oportunidade de me converter em discípulo do professor Orlando Ribeiro, da professora Raquel Soeiro de Brito, do professor Mariano Feio e dos professores mencionados nos agradecimentos do livro (dois deles, aqui ao meu lado), diplomando-me com um ofício que procuro fazer por honrar todos os dias.
Termino com Alexander von Humboldt e termino já. Para o precursor da geografia moderna, a compreensão da Natureza passava pela consciência da sua beleza e da sua representação artística. Bem sei que este livro não acrescenta nada de útil ou de belo a tudo quanto é todos os dias ensinado nesta sala de aula, ainda que essa intenção possa querer dissimular-se nas circunstâncias excecionais deste momento. Sem olhar a notas, a louvores e a distinções, ele é apenas um humilde esboço geomorfológico da paisagem humana tal como eu a entendo. Fi-lo apenas movido pela intenção de que a geografia que nele possa existir surgisse representada em camadas líricas tão originais e tão translúcidas quanto possível e que a força expressiva de tudo quanto aprendi e vivi convosco viesse à tona, como num movimento de upwelling plasmado na linfa da imaginação.
Se este livro pode, de algum modo, ser emoldurado como prova de um crime de traição à geografia e à literatura, declaro-me, desde já, culpado. Não espero absolvição. Foi premeditado e passional.
