O que Albufeira tem de melhor

Texto do escritor Roberto Leandro, de suporte à apresentação do livro «Albufeira – Histórias da Nossa Gente» (ed. On y va), de Ana Sofia Brito (Restaurante Cêpa Velha, em Albufeira, 13 de Dezembro de 2025)

 

Ana Sofia Brito é o que Albufeira tem de melhor. Como pessoa e como artista.

Como pessoa, é humilde, honesta, acolhedora, sensível, atenciosa. Como autora, é original, versátil, multifacetada, surpreendente e viciante.

Actualmente, é tão impossível falar de escritoras algarvias sem mencionar Ana Sofia Brito como Lídia Jorge. Ambas carregam, ora aos ombros, ora ao colo, a sua terra. Nas suas palavras, o Algarve torna-se mundo, sem deixar de ser aldeia.

Nesta colectânea de vinte e cinco histórias, recolhidas com paciência de pescador, brio de costureira e dedicação de operária fabril, Ana Sofia Brito revela uma paixão por Albufeira e um fascínio pelos seus hábitos e pelas suas gentes, não caindo, porém, na tentação (ou na moda) de tudo romantizar.

Há por aqui desencanto, tristeza, mágoa de quem vê descaracterizada uma terra tão reconhecida lá fora, mas tão desconhecida cá dentro.

Pergunto: será que esta Albufeira se reconhece?; será que nós a conhecemos?

«Se queremos saber para aonde vamos, temos de saber de onde viemos», diz-nos a autora.

Esta «é uma «perspectiva poética, mais do que histórica».

Há personagens que alguns reconhecerão, seja porque viveram esses dias distantes, seja porque se cruzam hoje com os herdeiros dessas figuras emblemáticas, gente que com o mesmo zelo e o mesmo amor à terra dá continuidade aos misteres antigos, mantendo viva não apenas a tradição, mas a memória da geração que a iniciou.

Outras personagens há que, se não as virmos de quando em vez nas… «agitadas» noites de Albufeira, passaremos, depois desta leitura, a imaginá-las aqui e acolá. Quem sabe se, num passeio pelas velhinhas ruas, não damos de caras com o Zeferino Sem Tino e a sua gabardina, ou o Valter Enguia e o seu talento… peculiar. Infelizmente, ainda há algumas Alziras a querer ensinar nomes de rios à base de reguadas. Ainda há homens a partir para guerras que não fazem sentido. E ainda há a lembrança de cheias que devolvem as ruas ao mar.

Mas nem tudo são mágoas.

Para o provar, escolhi cinco histórias que acredito serem reveladoras do que foram Albufeira e as suas gentes, mas também de quem são a Ana Sofia Brito e o Guilherme Limão [autor das ilustrações], enquanto pessoas e autores.

Antes disso, caro Guilherme, cara Sofia, expliquem-nos por favor como nasceu este projecto e qual a sensação de tê-lo finalmente nas mãos.

 

[seguiram-se intervenções de Ana Sofia Brito e Guilherme Limão e a leitura de cinco das histórias do livro por Roberto Leandro: «Três manéis no posto da guarda, «O cano do ribeiro», «Cinepax», «Candinho Peixeiro» e «Da primeira bicicleta ao primeiro amor»]

[Texto: Roberto Leandro]