O Passado É para Sempre
José do Carmo Francisco, autor das crónicas de O Passado É para Sempre, deixa na contracapa do livro a seguinte nota:
Sendo o mundo actual uma terrível fábrica de esquecimento, compete ao autor de um livro de crónicas transformar o caduco em perene, tal como acontece com as folhas das árvores.
O jornal acaba muitas vezes no fundo do caixote do lixo doméstico ou a embrulhar peixe no mercado; o livro pode durar um pouco mais. Agora as notícias já não existem, apenas se repara no barulho feito à sua volta.
Uma crónica tem a desvantagem de não ter qualquer barulho de fundo. O cronista está ali para dar o seu recado e o seu testemunho, mas apenas por palavras – e a arte da palavra é uma arte pobre.
Aquilo que um general disse um dia sobre os crimes da Guerra Colonial («Já ninguém se lembra…») é o perigo que corre um livro de crónicas como este: o de já ninguém se lembrar dele daqui a alguns anos.
O cronista é o repórter da companhia violenta do mundo (recorro ao título de um livro de Victor Matos e Sá) e escreve para que o esquecimento não vença a importância das pessoas e dos seus momentos.
Tal como o poeta num poema, o que o cronista procura na crónica é alcançar o equilíbrio precário entre a canção e a reflexão, entre a balada e o proveito e o exemplo que é a moral adjacente a todas as histórias.
O que o cronista quer ser é historiador do quotidiano – nada mais.
