E sobre tudo as camélias

A narrativa E sobre tudo as camélias, de Clara Andrade, foi a vencedora em 2020 do Concurso de Escrita Criativa Poeta António Aleixo, iniciativa de Analita Alves dos Santos e David Roque sob a tutela da Fundação António Aleixo. «Oferece o surpreendente, a marca da ambiguidade desarmante», conforme assinalou o júri, que ainda destacou: «É o mundo particular e subjetivo de uma mulher, com as suas reflexões ontológicas sobre o amor, o tempo, as partidas e os regressos. As relações com os homens, com a família e o tempo da memória são o tema do discurso, sem descurar algumas realidades sociais. O estilo é refrescante e poético, ao ritmo da respiração, capaz de criar emoções e imagens tocantes, numa linguagem arrojada e por vezes subversiva, mas sempre densa e profunda, como se se tratasse da escavação da alma, do apuramento da memória, da clarificação da vida.» O júri fez também notar a escrita na primeira pessoa, capaz de dar uma visão subjetiva das personagens, assinalando a criada Gertrudes, «uma ponte para o pragmatismo e a vida real».

 

Esse sorriso descabidamente risonho no teu rosto.

E nada pode ser feito. E não encontro nome para o que escondes na face onde o riso se expõe, aberto e desmedido. E nada pode ser alterado ou dito. Nem tu o saberias dizer, agora que habitas um lugar distante onde as vozes gritam, mas já não falam.

Olhas os meus olhos tristes e os teus olhos enxutos são janelas abertas de par em par.

Olho-te, assombrada desse vazio, desses olhos desmesurados e cândidos. Olhos limpos. Olhos que já não conheço.

Olha para mim. Voltei.