O verso ainda é verso
Texto de Nero, poeta e professor, sobre o livro de poesia Substâncias (ed. On y va), de Vítor Gil Cardeira, publicado no dia do aniversário do autor em 2026 (28 de Março); este texto foi depois o suporte da intervenção sobre o livro a 6 de Junho, em Monchique, na Casa das Palavras
Que em Portugal se lê pouco, já não é novidade para ninguém. Que entre quem escreve e publica (poesia ou não) se lê pouco – perdoem-me a franqueza ou, na pior das hipóteses, o gosto duvidoso ou demasiado selecto que tenho construído –, também me parece uma evidência. Que a resistência à leitura de poetas ou de outro tipo de autores que habitem outras esferas que não os principais meios urbanos do país é um facto (mais do que uma mera desconfiança minha), também me parece claro. Que grande parte da poesia contemporânea tem perdido profundidade (semântica, estética, etc) já me parece mais discutível, ainda que possa ser compreensível essa sensação, essa percepção ou essa tendência efectiva, na era em que mais gente parece saber ler e escrever, em que mais gente parece ter formação – nesta era em que a humanidade parece ter perdido a maiúscula, o bom senso e o valor dele. A necessidade da escuta, do diálogo, da aprendizagem, da esperança… soa-me hoje a causa perdida ou a mensagem panfletária e romântica dos anos 80/ 90, em que a minha infância teve lugar.
Talvez esteja só a envelhecer e o mundo tenha sido sempre liderado por energúmenos. Duvido – se bem que a dúvida é bem menor quando me ocorre a ideia de que os energúmenos de hoje elevam, sem quererem e tão facilmente, os outros, que lhes antecederam, a deuses. Estamos cada vez mais estúpidos, num tempo em que tudo ou nada se aceita. A ideia de qualidade literária, no meio de tanta diversidade e relativismo, parece uma noção ultrapassada. Já a desinformação, o racismo, o ódio, o desrespeito pelo direito à felicidade de cada um (se essa em nada afecta a felicidade dos demais) estarão na ordem do dia. Desenvolvimento, dizem. Desenvolvimento, preconizam. Desenvolvimento, ponto. Desenvolvimento… uma ova.
Dar aulas é perder a esperança todos os dias. E é semeá-la com igual frequência.
O livro Substâncias, de Vítor Gil Cardeira, também ele professor (para sempre professor), tem da melhor poesia que li este ano. Nele, o verso ainda é verso. O poema ainda é poema. As leituras possíveis desdobram-se a cada investida. É, de facto – passe o trocadilho que o título tão bem sugere –, poesia de substância. Poesia substantiva. Poesia que, para quem gosta de ler, nos faz o dia, o fim-de-semana. Poemas há que, espremidos, não soltam um caroço. Não aqui. Não, definitivamente, aqui. Aqui há apuro, burilamento, alcance, ideias maturadas no «silêncio, na nudez da pedra», «palavras interditas» só para aqueles que não ousam o voo. Poemas límpidos na aspereza, na rouquidão, na lucidez e na destreza de quem modela as palavras como quem respira.
O Vítor lê, a sua poesia reflete esse tempo entre leituras, entre conversas com outros poetas que perpetuam o poema infinito; essa maturidade que não se adquire de outro jeito. Não é «poesia de um autor regional», é poesia portuguesa da melhor espécie, que cava com a mesma enxada a esperança e a cratera.
Ao que sei, o Vítor (professor, contista, poeta, pessoa…) faz anos hoje. Tem em Substâncias um pequeno grande livro.
[Texto: Nero]
21.08.26
