Um foco de luz

Solitude – foco de luz sob escuta do tema homónimo de Ryuishi Sakamoto: texto de Paulo Correia, de suporte à apresentação do livro de poesia Solitude (ed. On y va), de Sílvia M. Vasconcelos, na Casa das Palavras, em Monchique, na tarde de 6 de Junho de 2026

Primeiras coisas primeiro:

Estabelecer um foco sobre a obra hoje em apresentação foi o desafio que me foi lançado pelo editor deste segundo livro da autora.

A primeira luz desse foco vai para o título do livro, Solitude, que convoca o leitor para o território do acto criativo, da arte poética, como acto solitário por excelência, que por vezes nos conduziu a experiências limite como no caso de Só de António Nobre, qualificando-o como «o livro mais triste que há em Portugal».

Sendo a autora natural da Ilha da Madeira, não podemos deixar de evocar os autores John dos Passos, Herberto Helder, Ana Teresa Pereira, José Agostinho Baptista e outros, também eles ilhéus ou com ligações à ilha, como tendo uma postura pouco inclinada à exposição pública (no caso de Herberto Helder e Ana Teresa Pereira, quase tocando a reclusão) e ao mediatismo, refletindo sobre o isolamento ou a solidão dessa condição geográfica, cada um à sua maneira, muito embora a autora deste segundo livro de poemas, depois de Arestas, se afirme também na esfera pública, na área da comunicação social e da intervenção política.

A propósito da obra, do autor e do leitor, refere Herberto Helder em Apresentação do Rosto:

A menos que se execute um milagre./ E toda a sala permaneceria muda e à margem da (miraculosa) solidão, se o demónio, que passava pelos corredores, não tivesse encontrado a porta entreaberta e, espreitando, não dissesse: um milagre?

Na primeira secção de Solitude, «Tormentas», e logo no poema de abertura, a autora diz ao que vem:

Não me aflige a solidão
esta condição de me encontrar
sem ter de inventar mais palavras
que logo se desatam na vacuidade
das rodadas dos cafés.
(…)
Sou só
e comigo moro
em união,
em desconexão.
Por sentença.
Por decisão.

Na segunda secção do livro, a autora reúne alguns poemas que nascem sob a égide dos afetos.

«Dileções» são poemas-tesouro, guardados numa caixa para memória futura. Através deles, a autora trata dos vínculos com os outros e reserva-lhes um lugar especial, grafado aí. Como num dos poemas:

Vinha sempre à mesma hora
qual felino de rotinas certeiras,
porém desobrigado de ponteiros e relógios,

Mas à medida que o foco vai ficando mais evidente, ou pelo menos na forma de tentativa, será preciso descer à carne do poema e penetrar no livro.

Existe também nos poemas de Solitude um foco sobre o sofrimento humano, a solidão do cárcere, que revela um olhar atento à forma que a sociedade resolveu instituir para «vigiar e punir»,(1) segundo o filósofo Michel Foucault:

Nas aldrabas daqueles muros,
deambulam homens e mulheres
marcados por desacertos
e falhas que os remoem.
Na compunção de tantas desditas

Assim, lançar um foco é revelar parcialmente um objecto mal iluminado, e se esse foco desvendar que estamos perante uma ode ao fulgurante motor da criatividade e à amizade, num tempo marcado pelo sofrimento e pela guerra, já terá valido a pena. Caberá aos leitores ampliar esse foco e com a sua leitura individual e intransmissível ampliar a iluminação sobre estes poemas.

Quero, por fim, agradecer à autora, ao editor e ao público o tempo que dispensaram a escutar este foco de luz sobre o presente livro de poemas Solitude.

 

(1) No livro Vigiar e Punir, o filósofo francês dedica-se à análise minuciosa das modificações dos métodos da vigilância e da punição, que se encontram em várias entidades estatais (hospitais, prisões e escolas), e dos sistemas penais que os suportam.

[Texto: Paulo Correia]

20.08.26