Uma praia na cabeça da mãe e uma montanha onde centopeias reivindicam os seus direitos

Texto de Ana Sofia Brito, actriz, malabarista e escritora, de suporte à apresentação do livro de poesia A Praia (ed. On y va), de António Manuel Venda, na Casa das Palavras, em Monchique, na tarde de 6 de Junho de 2026; no final, um dos poemas do livro

 

Não posso deixar de referir, em primeiro lugar, a forte simbologia da capa de A Praia, que ilustra bem a mensagem do poema de abertura, precisamente o que dá o título ao livro. Vejo o retrovisor como o portal onde o autor olha para o passado, sempre com o passado feito uma gravura de traços irreversíveis, irremediáveis.

No retrovisor a luminosidade dos faróis surge desfocada, desfigurada pela chuva da noite em que um demónio negligenciou o pacto, o compromisso, a honra e a ética. À chuva pode-se chorar sem ser notado.

Acredito que o autor se tenha questionado até à exaustão acerca do sentido daquele momento, levando a indignação ao nível da incredulidade, da dúvida que surge quando a realidade se destitui de sentido – desarrumando até as crenças enraizadas na esperança.

Se se pode achar que o oposto da dúvida é a certeza, o primeiro poema mostra-nos que talvez isso seja um engano. E se o reverso da dúvida for a indignação?

A Praia é um livro cheio de referências, não só explicitas, também implícitas, umas ténues, outras de textura bem palpável – algo que se nos pega à pele e à carne enquanto lemos.

Há uma praia na cabeça da mãe e uma montanha onde centopeias reivindicam os seus direitos. Uma serra que arde e um regresso à violência cobarde da infância. E o mundo diferente de 1983, tão diferente em tudo e até no autor e nos seus heróis do futebol. Uma baleia entre bêbados e um amigo que lê e vota. Uma criança curiosa no banco de trás do carro e um palhaço que de repente se escapa. Um amor por engano que não morre porque no seu poema não há uma pistola. Um imperador diante de um conquistador vestido de ferro e à procura de ouro. Medalhas e estatutos para o pódio do ódio. E cães, bruxas, um homem gordo de boina na cabeça e uma jornalista. Tudo termina num carro, à semelhança do começo. Estão os dois, o autor e a mãe, desta vez separados por um vidro.

Permitam-me que me detenha em dois poemas: A praia, que já referi, e Os três porquinhos.

No poema A praia, vemos repetida e destacada a palavra humanidade, numa denúncia que destapa o abandono a que as pessoas são submetidas mesmo quando se encontram esmagadas pela vulnerabilidade – o autor e a mãe sobem a serra, à noite; é Inverno e chove, e a mãe pergunta se vão à praia.

Temos por um lado o demónio à solta pelos corredores do hospital – um demónio que não sabe o significado da palavra urgência, nem de outras – e por outro a impotência do conformismo do lado de lá da linha da Saúde 24. A humanidade, aqui de h bem pequeno, quase a podemos ver no desfoque do retrovisor, que acaba por converter-se no carro do último poema, onde mãe e autor acabam separado por um vidro.

A poesia é de quem a lê, não de quem a escreve. No poema Os três porquinhos, vejo a putrefacção a que o capitalismo nos condenou enquanto espécie – vejo ao meter-me pelas entrelinhas, bem para além do discurso directo, algo que importante num livro como este.

Três porquinhos vão à vila e bebem copos de leite, tranquilos, na mesa do café de um homem mal-disposto. Há homens de h minúsculo que não conhecem a diversidade. Mas também uma mulher que diz que aqueles três bichos, afinal, podem ser crianças mascaradas. Se calhar até são. Que diferença faz num poema?

Enquanto a mulher olha para os três porquinhos e considera a possibilidade de serem crianças, um outro homem, industrial, só vê chouriças e morcelas. Olhar e ver não são sinónimos – sinónimos talvez sejam o industrial e o demónio do primeiro poema, os dois furtivos, sempre a fazerem contas a partir de tudo o que vêem.

O autor, que olha e vê, garante-nos que são três porquinhos, com tanta certeza que os coloca em evidência no título do poema. E porque a aspereza do não reconhecimento da identidade não deixa grandes alternativas a quem o sente na pele, os porquinhos deixam o café à pressa, para se refugiarem da crueldade que adivinham. Um esconderijo fora da vila, talvez. Na vila nunca mais ninguém dá por eles.

O industrial atira para o homem do café: «cale-se aí, eu sou um desgraçado». Os três porquinhos tinham acabado de sair. Ele também sai, tão apressado como os três porquinhos.

O livro A Praia remete-me para uma dimensão circular, onde elementos estão suspensos na intermitência, interligados pelo homem que os vive. Acontecimentos perpetuam-se numa reprodução involuntária ao longo do tempo, novas significâncias descobertas, roupagens diferentes num mesmo corpo. E o homem, entre tantas pessoas, surge sozinho no fim e revive um dia da infância – esse tempo em que o futuro, que acabará por acontecer, parece sempre uma impossibilidade.

[Texto: Ana Sofia Brito]

Um dos poemas do livro, lido pelo autor na apresentação

 

a bruxa

em cima dos boletins de voto
dei com um livro meu
o primeiro de três do pequeno tukie
sim
o pequeno tukie
inspirado no meu filho mais velho
quando era um menino
na planície mais bela
no nosso monte inesquecível
...
dei com o livro
o sorriso enigmático do javali
é o título
eu ainda votava nas eleições legislativas
foi antes da morte da minha mãe
nunca mais votei para governos
nunca mais votarei
é uma questão de honra
minha
e de respeito pela memória
da minha mãe
...
o livro estava
em cima dos boletins de voto
e tudo parecia quase normal
até que uma das pessoas da mesa
pegou no livro
e pediu-me um autógrafo
...
era uma das mesas de votação
uma pessoa estendia-me o boletim para votar
outra dizia o meu nome
outra não largava o meu cartão de cidadão
e outra agarrada ao livro
queria um autógrafo
...
era no quartel dos bombeiros
eleições
um livro
um autógrafo
algo tão inesperado
e a minha mente a recuar
dezenas
e dezenas de anos
a recuar
até às primeiras vezes
em que ia votar
eu um miúdo
talvez com o dobro da idade
do pequeno tukie
devia ser isso
votava-se em vários sítios
não era só num
como ali nos bombeiros
a minha mesa ficava na câmara
a mesa dos jovens
creio
tínhamos de subir as escadas todas
punham a mesa lá bem em cima
como se estivessem no céu
e era preciso subir
subir
subir
eu ainda não tinha livros
por esses tempos
nem desconfiava que haveria de ter
faltava quase vinte anos
para nascer
o meu filho mais velho
o fantástico menino
que me ofereceu
o pequeno tukie
...
perto da mesa
lá bem em cima
havia sempre um tipo
mal-encarado
tão mal-encarado
e quando me via chegar
dizia bem audível ao presidente
da câmara
– menos um
esse tipo
para mim
era uma bruxa
fazia previsões
e acertava
31.08.26