A poesia como acto de desobediência

Texto de Manuel Matos Nunes sobre o livro Agora É Aqui (ed. On y va), do poeta espanhol Julio César Galán; Manuel Matos Nunes é poeta, ensaísta e investigador do Centro de Estudos Regianos, de Vila do Conde.

 

Agora é aqui (Poesia 2007-2018), de Julio César Galán, surge como mostra das suas obras daquele período cujos títulos são os seguintes: Tres veces luz (2007), Márgenes (2012), Inclinación al envés (2014), El primer dia (2016) e Testigos da la utopia (2017). A tradução do castelhano foi feita por Miguel Filipe Mochila e a edição bilingue é da On y va (Lisboa, Novembro de 2025).

As duas primeiras partes da mostra integram poemas ao que tudo indica publicados nas obras de 2007 e 2012. Neles ocorre uma linguagem substantiva, de sugestivo poder simbólico, como por exemplo em «Acima do nível do mar» (pp. 21 e 23), cuja primeira estrofe citamos: «Anseio pela luz toda porque um dia prendi o mundo/ com o meu indicador,/ e amo/ o fluxo dos rios pois com alguns peixes/ aprendi a profundidade.» E num poema de Márgenes (2017) é ainda a procura do signo da luz que nos surpreende: «não víramos tanta luz/ e ainda não era verão»(«Tarde anfíbia», pp. 37 e 39).

A partir dos poemas publicados em 2014, a impressão que se colhe poderá ser a de estranhamento. Sobretudo para aquele leitor que, além do mais, tenha presente o primeiro verso da «Art poétique», de Paul Verlaine – «De la musique avant toute chose» – sem considerar os quatro finais: «Que ton vers soit la bonne aventure/ Eparse au vent crispé du matin/ Qui va fleurant la menthe et le thym…/ Et tout le reste est littérature».

A expressão da literatura de uma determinada época resulta de movimento e transformação incessantes. Diz-nos Pessoa, pela voz de Ricardo Reis: «O que dura na arte é a visão de eterno que uma época tem» e, ainda mais, «cada época vê o eterno a seu modo, tem as ideias que a caracterizam, e essas são as que caracterizam a sua saúde e não a sua doença» (Poemas para conhecer – Textos de um novo mapa, Teresa Rita Lopes: Lisboa, Estampa, 1999, p. 321). O conteúdo artístico que fora de uma época a ela se reporta tem o sentido desviante do déjà vu, ou seja, do epigonal («a nefasta poesia dos epígonos», terceiro movimento do poema «Pequena formação do universo», p. 123).

Milan Kundera, em A Cortina, no capítulo «Consciência da continuidade» (São Paulo, Companhia das Letras, 2005, pp. 12-13), lança-nos a seguinte hipótese: se um compositor de hoje fosse capaz de compor uma sonata tão perfeita como as de Beethoven, tão perfeita que pudesse até ser entendida como obra magistral do compositor alemão, sendo assinada por um contemporâneo seria motivo de riso, e, quando muito, o seu autor poderia ser aplaudido, mas apenas como um virtuoso do pastiche. Acreditemos, pois, no movimento incessante da «bela aventura» da poesia, sujeita por vezes a estranhamentos que depois se entranham (alusão ao Pessoa publicitário!), sendo disto exemplos tanto os caligramas de Apollinaire como, entre nós, a poesia experimental de Ana Hatherly.

Lemos na mostra de Julio César Galán o apelo ao leitor para se integrar no processo criativo da poemática. A dualidade criativa autor-leitor parece ser um dos focos da poesia especular: fazer imaginar o leitor, a partir da sinalética disseminada no texto (espaços em branco, palavras ilegíveis, passagens duvidosas e de leitura conjectural) a sua versão do poema. O leitor, sabemo-lo bem, é como que um reescrevente da obra do autor. Mas também o autor lima e reescreve no decurso do processo criativo. Haverá poesia espontânea? Ruy Belo não acredita em tal! Num pequeno texto com o título «Da espontaneidade em poesia» diz-nos que para chegar ao poema vale tudo: «artifício, fingimento, (…) tempo, montagem, colagens, colaboração colectiva, gralhas tipográficas, etc.» (Obra Poética, vol. 3, Lisboa, Editorial Presença, 1984, pp. 94-96). Então porque não mostrar isso ao leitor, essa estética do fluir da poesia num trabalho permanentemente inacabado?

Na disciplina de Crítica Genética, estuda-se a via sinuosa que vai do rascunho à obra editada, os tentames, as frases riscadas no vertiginoso modus faciendi da escrita literária. Os sucessivos patamares do labor limae não devem, por direito, ser conhecidos?

Também as variações que surgem de uma ideia, configurando caminhos possíveis e alternativas, porque não integrá-las no poema total?

Destes e outros recursos de forma e conteúdo, de texto, paratexto e intertexto se mantém, na nossa opinião, a poesia especular de Julio César Galán.

Tomemos por exemplo o poema «A calhandra sobe…» da terceira parte da mostra (pp. 73, 75 e 77). O texto tem versos riscados, ainda que legíveis, o que desde logo configura certo número de variações de leitura; no segundo verso da segunda estrofe e mais adiante, por duas vezes, surge o sinal de espaço deixado em branco pelo autor, convite ao leitor para imaginar a seu gosto o que se encontra em falta; numa passagem da p. 73 ocorre o sinal //, comumente entendido como o de divisão de estrofe quando o poema é escrito em linha de prosa; e em duas notas de rodapé são referidos intertextos ou variações do poema, além de juízos autorais de ordem estética e criação literária. Interessante é a referência, da parte do poeta ortónimo, sobre a possibilidade de a sua voz se ter confundido em certos escritos com a de um dos seus heterónimos (Jimena Alba). Como sabe quem se inteirou do assunto, não é problema com que Fernando Pessoa não se tenha debatido. O autor rejeita a classificação de semi-heterónimo para esta voz, apresentando-a como uma nova figura autoral, o interónimo, ou seja um heterónimo intrapoético («as loucuras dos meus outros», poema «A casa maravilhosa», p. 11).

A noção de semi-heterónimo, diga-se a propósito, foi exposta por Pessoa na carta de 13 de Janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro (primeira publicação na revista «presença», nº 49, Junho de 1937): Bernardo Soares era um semi-heterónimo porque «não sendo a personalidade a minha, é não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade».

Em certas partes da mostra, o conteúdo poético integra grafismos, variações, poemas visuais e contra-poemas como o que é apontado na nota de rodapé de «Figura 14» (pp. 147 e 149).  Uma coisa é de assinalar: pelas referências a autores como Byron, Unamuno, Paul Valéry («O cemitério marinho»!) e outros, a tradição não é descartada, como ocorre, frequentemente, na expressão artística das vanguardas. O que nos fez lembrar, de novo, Ana Hatherly, nas suas trinta e uma variações de «Leonorama» sobre um vilancete de Camões (umas textuais, outras gráficas e visuais, e uma até de conteúdo vazio).

Assinale-se nestas notas de leitura que gostámos de conhecer a poesia especular de Julio César Galán, uma poesia de «erosões, desobediências e outras barricadas», como refere um artigo de Concepción López-Andrada e do próprio Julio César Galán publicado em http://dx.doi.org/10.25025/perifrasis202516.35.01. Uma poesia de espelhos e espelhamentos. O espelho (ó Borges!) é algo de alucinante, talvez um ínfimo reflexo do Aleph da cave da Rua Garay de Buenos Aires. Poesia que exige um leitor voluntarioso, decidido a superar o estranhamento e a perplexidade. Leitura difícil, poder-se-á dizer, mas não achamos. Aliás, a dificuldade numa obra de arte é sempre uma boa razão para se voltar a ela.

[Texto: Manuel Matos Nunes]