Entrevista com Ana Sofia Brito

«Escrevo para trazer o mundo para dentro de mim.»

Com um novo livro de poesia e a apontar para breve a publicação de um romance, Ana Sofia Brito diz que escrever sobre alguma coisa é guardá-la em si, memorizá-la. «Não quero desperdiçar isso», partilha.

Texto: On y va – Publishing Fotos: DR

 

Como olha para a sua poesia, agora que acaba de publicar um novo livro, «Tempo», precisamente de poesia?

Parece-me que não existe coisa mais difícil ao ser humano do que a auto-avaliação, a auto-percepção, o auto-olhar. Não sei como olhar para a minha poesia. Aquilo que sinto, em relação a ela, é que é o meu lado mais ousado e mais ingénuo ao mesmo tempo. Aprendi, ao escrever poemas, que a ousadia tem muito mais de ingenuidade do que de coragem. A minha poesia é intuitiva, é verdadeiramente despretensiosa e consciente das limitações. Talvez por ter vindo do teatro e do mundo grunge dos anos 90, a minha escrita seja crua, escusando artifícios e berloques. Se há um cão cheio de pulgas a morrer à fome, é assim que o descrevo, não procuro mais nada além disso; não é a lua do céu que o cobre que me interessa, são precisamente as pulgas, a fome e o desprezo. A minha poesia é isso, naturalmente, nem sequer são tentativas. É assim que sai. Um poema, faço-o em cinco minutos e, a não ser os erros flagrantes na escrita, não altero nada mais tarde. Escrevo-o em cinco minutos, meto na gaveta, passado um mês olho para ele, se gosto, publico, se não gosto, rasgo e vai para o lixo.    

O que tem este livro, «Tempo», de si?

Este livro, «Tempo», tem tudo de mim. Cada verso, cada palavra, cada sinal de pontuação a registar os momentos em que inspirei ou expirei, ou o ritmo do meu batimento cardíaco. Não há aqui nada que não seja eu, ou não seja meu. É o meu olhar, independentemente do grau ficcional que cada poema tenha. Ainda que um poema, uma quadra, um verso possa existir apenas na minha imaginação, ele (o poema) sou eu.

Há um poema deste livro que me emociona particularmente, chama-se «Escombros». Uma noite em que a minha filha ficou sem bateria no telemóvel e não me deu notícias até às cinco da manhã, entrei numa angústia tão profunda que o pensamento ficou-me preso às mães de filhos desaparecidos. Por não conseguir dormir, fui ver as notícias e assisti aos desaparecimentos de crianças nas enxurradas de Valência. A minha vulnerabilidade daquela hora, colocou-me ao nível dessas mães, nunca a minha solidariedade foi tão real e honesta; eu estava, efetivamente, a sentir aquela dor. E se a minha filha não voltasse a aparecer? E aqueles filhos cujas mães não sabiam se estavam vivos ou mortos debaixo da lama? Este é o meu poema mais sentido, não é a minha experiência pessoal, mas é a minha maior verdade. 

Acha que os seus poemas, ou melhor, o que os fez surgir, acha que isso poderia estar em livros de narrativa que publicou, como «Em Breve, Meu Amor» e «A Menina Dança em Dezembro»?

Depende do poema. Se falarmos dos poemas amorosos, como no caso da escrita das canções, em que o tema tem de ser o amor, talvez não funcionasse. Não sou capaz de escrever sobre o amor romântico sem fugir para a fisicalidade, e, a certo ponto, começo a cair para o lado do erotismo, e a coisa perde-se porque fica muito focada no corpo. Definitivamente, não me ajeito a escrever histórias de amor em prosa. Quanto aos outros temas, sim, caberiam perfeitamente nas crónicas, ou nos contos. Eu até acho que os poemas são flashes de possíveis crónicas. Um poema pode ser o resumo de uma crónica, com um toque a mais de subjetividade, de lirismo, de economia de palavras, claro.

«Escrevo para trazer o mundo para dentro de mim, para não o deixar passar-me ao lado. Escrever sobre alguma coisa é guardá-la em mim, memorizá-la. Há tanta coisa cativante, importante e interessante a acontecer à nossa volta todos os dias e eu não quero desperdiçar isso.»

Já a ouvimos falar dos seus sonhos a propósito da narrativa, de os registar e por vezes acabarem numa crónica ou num conto. Na poesia fala mais daquilo que observa. Como é este seu mundo, de sonhos e de realidades?

A minha obsessão por sonhos vem desde muito cedo. Em criança tinha muitos pesadelos e cresci com essa espinha entalada na garganta da infância. Enfim… na juventude isso não passou e eu, já bem cansada, decidi fazer alguma coisa para tentar combater essa situação. Comecei a ir a médicos, psicólogos, psicanalistas e psiquiatras, a estudar livros e mais livros sobre o assunto, e descobri os sonhos lúcidos, que foram a minha salvação. Num sonho lúcido o pesadelo deixa de ser uma realidade que nos acontece, passa a ser uma tela onde vemos as coisas acontecerem fora de nós. Aprendi a perceber quando estou a sonhar e quando estou acordada, e com isso apaguei de vez o pânico dos pesadelos e os dias de angústia causada pelas noites infernais. Uma das ferramentas fundamentais para esse exercício é o anotar dos sonhos, pela manhã. E eu faço isso há muitos anos, mais de vinte. Tenho milhares de sonhos anotados. Acontece que raras vezes os transformo em crónicas, contos ou poemas, porque ao fazê-lo ia afastar a minha linguagem para muito longe da sua essência. Iria cair num género de realismo fantástico ou mágico, ou até surrealismo. No entanto, arrisquei fazê-lo duas ou três vezes. Se bem me lembro, em «A mulher do bosque» e «Dois esquilos num mundo qualquer», de «A Menina Dança em Dezembro». Um dia vou fazer um livro só de sonhos, contos. Mas aí, assumidamente, num género que não é o meu género de escrita natural.

Eu sou mais do realismo, da observação, gosto de observar o que sinto quando me deparo com as mais diversas realidades. Gosto dessa crueza na escrita e na leitura. Não leio fantasia, por exemplo, a fantasia só me interessa se for um auxiliar direto da realidade. Uma alucinação assumida, digamos.

Para quem andou por tantos lugares do mundo, de Albufeira a Goa, de Barcelona a Cusco, La Paz ou Rio de Janeiro, que universalidade lhe parece a da sua escrita?

Eu assumo que tenho muito medo, muito mesmo, dos erros de interpretação. O medo que não tenho dos erros linguísticos, tenho-o das falhas na interpretação. Eu preciso de sentir que conheço um assunto até ao seu limite para escrever sobre ele. Por isso é que eu nunca seria uma cronista de opinião. Isto para dizer que, apesar de ter viajado muito, vivido e trabalhado em três continentes, não me arrisco a escrever profundamente sobre esses lugares. Escrevo sobre o óbvio – óbvio não significa menos importante para reflexão. Escrevo sobre o que vejo à superfície, que não deixa de ser o reflexo da profundidade. Mas tenho sempre medos e cuidados. Escrever sobre a violência contra as comunidades trans no Brasil é assustador, eu fi-lo, mas ao de leve, a ponta do véu. Escrever sobre o tráfico e a escravatura de brancos nas montanhas do Perú é assustador, mas eu assisti a isso, e relatei também, não me é fácil, sai quase engasgado, em sussurro. É-me muito mais confortável escrever sobre a minha terra, conheço-a em outra dimensão, tenho esse à-vontade. A universalidade da minha escrita prende-se muito mais aos mundos que frequentei do que aos países por onde passei. Frequentei comunidades muito diversas. Da alta sociedade – seja em trabalho ou convívios de amigos de familiares – ao submundo da rua, da indigência. Frequentei assiduamente, e com amizades profundas, tanto rodas de hippies saídos do Woodstock como rodas de intelectuais da faculdade em Coimbra. Tenho amigos de todas as partes do mundo. São as pessoas que nos dão universalidade, não são os lugares. Um viajante compulsivo pode ser menos universal do que o barqueiro de «Siddhartha», não é? Os grandes livros fixam-se no local, partem do local para o universal, e não o contrário. Eu acredito nisso. 

Como é escrever em português com todas as vivências que tem do Brasil e, obviamente, de Portugal?

Eu tenho muitas influências do Brasil, mas também de África. Eu li, e leio, tanto Jorge Amado, Clarice Lispector, Ariano Suassuna, João Guimarães Rosa, como Pepetela, Ana Paula Tavares, Mia Couto, Ondjaki e Agualusa, por exemplo. Como leio os portugueses. Quando era mais nova, só lia os russos, o meu avô era duro e crítico para com a nossa língua e o nosso país, não queria livros escritos em português na sua biblioteca. Conheci-os mais tarde. Em jovem lia mais os norte-americanos, os russos e os franceses. Mas com destaque para os russos.

Quando descobri os brasileiros e os africanos (de língua portuguesa) não quis outra coisa, sou assim até hoje. Gosto muito, mesmo muito, dos regionalismos na literatura. E dos escritores que empregam essas linguagens. Naturalmente, é mais complicado entender os regionalismos na língua dos outros…

Acho que isso também se nota na minha escrita, pelo menos tenho tido algum feedback nesse sentido. O que é perfeitamente natural, sou filha de um africano, avós portugueses mas que trouxeram muito de África no seu jeito de viver e falar. Todos os dias da infância convivi com essa realidade, na família, nos amigos da família, nos meus amigos filhos desses africanos como o meu pai, etc. Por outro lado, cresci também entre os pescadores de Albufeira, cuja linguagem é igualmente vincada nas suas características. Casei muito cedo, aos dezanove, com um brasileiro, e comecei desde então a ir regularmente ao Brasil e a conviver com essa cultura. Tinha, e ainda tenho, grandes amigos italianos, mexicanos, brasileiros, africanos e, obviamente, algarvios. Todas essas linguagens me fascinam e é, portanto, óbvio e natural que isso se note na minha escrita. Acho que nitidamente, até. Qualquer pessoa que leia um texto meu vai perceber que tenho uma costela africana, outra brasileira, outra algarvia. Vão perceber que li avidamente os autores que referi.

«Aprendi muito com o meu professor e amigo Pedro Lamares, sim. Tanto em aulas como em noites de bebedeiras, quando já tinha despachado três garrafas de vinho, e eram cinco da manhã, e o Pedro me mandava olhá-lo nos olhos e dizer este ou aquele poema, ele gritava, Não acredito no que estás a dizer. E eu repetia até ele parar de gritar isso e dizer, Porra, agora sim, agora eu acredito nesse poema.»

Como entra a sua vida de artista multifacetada no que escreve?

Acho que não entra. Para mim, as outras artes são o meu modo de sobreviver. O amor que tenho aos livros não se compara a mais nenhum dos outros amores. Nem ao circo, nem ao teatro, nem à declamação. O circo é o meu ganha-pão, tenho de treinar, às vezes sem vontade. Tenho de ir trabalhar, às vezes até doente e com febre, que seja. O teatro é algo estudado, pensado, treinado. A dizedura idem. A escrita e a leitura, não. A escrita e a leitura são despretensiosas, em mim. Não carece de esforço, nem de estudo, nem sequer de compreensão. São, acima de tudo, uma doce companhia, sem segundas intenções, como são os amores verdadeiros, sem segundas intenções.

Nem sequer quero pensar em trabalho (que é o mesmo que dizer, nas outras artes) quando escrevo ou leio. Note-se que não falo dos espetáculos nos meus textos. Não falo desse mundo.

E Albufeira, a sua terra, por vezes tão longe, mas por vezes tão presente, como numa admirável crónica de um vagabundo em dia de festa? Como entra Albufeira não perguntamos no que escreve, mas quando escreve? Ou como pode entrar?

Não sei responder. Acho que Albufeira entra em mim como mero saudosismo. Como uma reverência e uma referência ao que são os meus antepassados. Atualmente, não tenho nada a ver com Albufeira; não me consigo encaixar na cidade. É como um amor que já não é o que era e que me deu uma tampa, me expulsou da sua vida. Ao qual eu nem sei se quero voltar porque, ao voltar, já não vou encontrar nada do que conheci. Eu costumo dizer, acho que até está escrito numa crónica: a pior das saudades é a de quem ainda está mas já não sabe ser o que sempre foi.

Albufeira fica em mim como memória de infância de um lugar que foi destruído e já não existe. Destruído pela guerra, outra guerra, menos violenta mas destrutiva na mesma medida.

O que é que mais a motiva para escrever? E para viver?

O prazer. Escrever é prazeroso; é conversar, é fazer perguntas sem a necessidade das respostas imediatas. É pensar sobre as coisas. É criar imagens. Ouço muitos escritores dizerem que escrevem para não serem esquecidos, ou para eternizarem qualquer coisa, ou para darem voz ao que não tem. Comigo, acho que é ao contrário. Escrevo para trazer o mundo para dentro de mim, para não o deixar passar-me ao lado. Escrever sobre alguma coisa é guardá-la em mim, memorizá-la. Há tanta coisa cativante, importante e interessante a acontecer à nossa volta todos os dias e eu não quero desperdiçar isso.

O que me motiva para viver são as pessoas. Saber que há gente para conviver. Saber que há gente que tem histórias para contar e eu posso simplesmente passar a tarde a beber cerveja e ouvir essas histórias, essa é a perfeição da vida. É como ir ao cinema ou ao teatro, mas no seu cariz mais genuíno. O convívio. O convívio é o que me motiva. Gosto de plantas e de animais, sim, mas o meu maior fascínio são as pessoas. Quase sempre as mais velhas, porque as mais velhas tiveram acesso a um mundo que eu não vi. Então, tudo o que me contam é novidade e original.  

Já ouviu canções feitas a partir de poemas seus. Sabemos que vai ouvir mais, pelo que se fala de letras que lhe pedem. Como ouve os seus poemas com música?

Antigamente eu escrevia para bandas de punk e grunge, em tempos idos. Bandas de garagem. Sentia essa rebeldia da mensagem a chegar mais longe. Era muita revolta, muita indignação com o mundo. Coisas normais da idade. Agora olho para esses objetos, essas canções, com mais carinho do que revolta. Mais doçura do que raiva, claro. Penso: bolas, isto afinal é mesmo bonito, tenho de continuar. E, sim, sei que não está longe o dia em que ligue o rádio e ouça um fado com uma letra minha, mas isso depende de outros processos. Sinto alguma ansiedade, sei que vou ficar contente e vaidosa. Nós, humanos, às vezes temos essa vaidade a fazer-nos bem, alguma função cerebral de prazer, faz parte. Ouvir letras minhas cantadas por músicos de excelência deixa-me vaidosa.

«Tenho amigos de todas as partes do mundo. São as pessoas que nos dão universalidade, não são os lugares. Um viajante compulsivo pode ser menos universal do que o barqueiro de ‘Siddhartha’, não é? Os grandes livros fixam-se no local, partem do local para o universal, e não o contrário. Eu acredito nisso.»

Como começou a dizer poesia, agora que é uma das pessoas que no nosso país a diz da forma mais sublime?

Comecei muito cedo. Mas comecei numa vertente de rap. Como disse, escrevia letras e poemas para as bandas de garagem. E eu própria, às vezes, arriscava-me no rap. Depois conheci a slam poetry, que vem daquela fala muito panfletária e colada ao rap; há gente muito boa nisso, em Portugal. Depois, através do teatro, cheguei à dizedura, que é um meio termo entre declamação e slam. É praticamente uma conversa. Olhar para o poema como uma conversa olhos nos olhos, sem inflamação nem desprezo. É uma corrente muito ligada ao Leonard Cohen. Aprendi muito com o meu professor e amigo Pedro Lamares, sim. Tanto em aulas como em noites de bebedeiras, quando já tinha despachado três garrafas de vinho, e eram cinco da manhã, e o Pedro me mandava olhá-lo nos olhos e dizer este ou aquele poema, ele gritava, Não acredito no que estás a dizer. E eu repetia até ele parar de gritar isso e dizer, Porra, agora sim, agora eu acredito nesse poema. Mas, lá está, dizer poesia é a eterna cenoura à frente do burro, não se chega lá. O mais perto da perfeição que conheço é a Maria Bethânia. Mas até ela, acredito que saiba que pode chegar mais perto. 

O que é que mais aprendeu com a escrita?

Aprendi a gostar de ficar sozinha, coisa que me era impensável antes de escrever. Aprendi a rever, a ter mais calma. A olhar duas, três ou quatro vezes para o mesmo objeto, sem ansiedade. E aprendi a perceber o quanto mudamos. A escrita é um registo para nos contradizer mais à frente.

E o que é que a escrita lhe trouxe de mais valioso?

A noção de que há mais gente a pensar e a sentir o mesmo que eu. Os comentários de quem lê os nossos textos são essa mais-valia, porque nos ajudam a avaliar a nossa noção sobre os temas.

E as pessoas, sempre as pessoas, que a escrita me trouxe – colegas, amigos. Gente tão diferente do mundo a que eu estava habituada, uma bela e generosa surpresa da vida.

Tem um contacto próximo com muitas pessoas que a leem. Que impacto tem isso em si, sobretudo o que lhe dizem do que escreve, por exemplo das crónicas?

Eu acho que é preciso ter algum cuidado com isto. Quem pensa mal da minha escrita não me vai dizer, à partida. Todos os comentários que me chegam são positivos, claro. Mas não posso, por isso, achar que é opinião geral. O meu termómetro são os meus editores (da editora e do jornal), se gostam e publicam, parto do princípio de que os textos têm dignidade para ser publicados. Confio plenamente nisso.

Tenho exemplos de pessoas que me conhecem e enviam mensagem a dizer que estão a ler o meu livro e é como se estivessem a ouvir a minha voz. Esse é o melhor dos elogios. Significa que sou honesta na escrita, que estou ali sem enfeites nem máscaras. Isso é melhor do que ser exímio na técnica da escrita, se me faço entender. Prefiro o arrepio à excelência técnica, em todas as artes, não só na escrita.  

«Este livro, ‘Tempo’, tem tudo de mim. Cada verso, cada palavra, cada sinal de pontuação a registar os momentos em que inspirei ou expirei, ou o ritmo do meu batimento cardíaco. Não há aqui nada que não seja eu, ou não seja meu. É o meu olhar, independentemente do grau ficcional que cada poema tenha.»

No que escreve há muitos temas, muitas abordagens. Se pedíssemos uma palavra para caracterizar a sua escrita, qual seria? E por quê?

Que pergunta mais difícil… Eu arriscaria na palavra Atenção. Porque a minha escrita é atenta acima de tudo o resto. Vem da atenção.

Ainda os temas… No livro mais recente, «Tempo», há um longo poema sobre a amizade. Como surgiu esse poema?

Eu gosto de homenagens. Já tive pessoas muito próximas a dizer que eu sou constrangedora na forma como lido com os outros. Demonstro sem medos, filtros ou reservas o quanto as pessoas me interessam. Não me importo de demonstrar que gosto das pessoas, às vezes até pessoas que nem conheço bem, mas com as quais já sinto uma química. Gosto de homenagens, gosto de deixar nítido e claro o quanto gosto de quem gosto. Não tenho vergonha nenhuma disso, nada. Eu quis fazer uma homenagem à minha amiga, um gesto de amor, foi isso. O poema tem uma linguagem que atravessa a ironia, a cumplicidade, o companheirismo e a comédia. É assim que a nossa amizade é, rimo-nos e choramos na mesma medida. Com a mesma presença na vida de cada uma, e acho que foi isso que fez com que o poema ficasse especial; mesmo quem não entende os nossos códigos, mesmo essas pessoas se identificam. Lá está, é escrever a partir de mim, neste caso, mas sobre coisas que todos sentimos. Quem não tem uma amizade assim? Cheia de códigos, de memórias duras das quais se ri, de loucura e desvario?

Tem uma definição de amizade que possa partilhar?

Um amigo é um irmão cujo sangue não vem da mesma linhagem. Um amigo é uma extensão de nós.

E uma definição de amor?

Isso é mais difícil. Um amor talvez seja um amigo pelo qual se sente atração física, desejo, paixão. Não acho que haja grande diferença entre amizade e amor, a não ser a intromissão da paixão no caso do amor.

Gosta da palavra definição?

Acho que nas duas respostas anteriores deu para perceber que não gosto nem da palavra definição, nem do conceito.

Pode falar-nos de algumas pessoas que tiveram impacto na sua vida enquanto artista e escritora?

As referências. Os autores que li, os atores e os malabaristas que vi. Aqueles que nos ensinam. Se começasse a nomear, não ia mais parar. Mas, concentremo-nos na escrita, para falar de impacto real e prático (tirando as influências literárias), há três homens. O David Roque, que me ensinou tudo o que sei sobre escrita, ainda que eu tenha aprendido pouco; ele ensinou-me muito. O José Centeio, que foi quem me desafiou a escrever, sem sequer me conhecer; ouviu-me falar um dia e perguntou-me: Gosto de como falas, queres escrever crónicas para o jornal 7MARGENS?, foi aí que comecei a escrever, em 2020. E o António Manuel Venda, que me publica, pela On y va, e é um verdadeiro e cúmplice companheiro no processo de edição.

O que é que até hoje mais a surpreendeu como resultado dos livros que publicou?

Surpreendeu-me muito que um editor brasileiro tenha visto os meus livros e me quisesse publicar no Brasil, isso foi mesmo inesperado. Surpreendem-me algumas mensagens de escritores, mas principalmente dos pares; um artigo do José do Carmo Francisco surpreendeu-me bastante, uma vez que meteu as minhas crónicas no saco das mesmas crónicas de alguns nomes que são absolutamente inalcançáveis, do meu ponto de vista.

Surpreende-me, às vezes, googlar o meu nome e encontrar sugestões dos meus textos, ou páginas que usam os textos e têm muitos comentários e apreciações. Estas coisas são surpreendentes, sim, assumo.

 

A AUTORA Natural de Albufeira, Ana Sofia Brito é atriz e malabarista de profissão. Publica regularmente as suas crónicas no jornal 7MARGENS e assina a rubrica «E por falar em livros…» no jornal Sul Informação. É autora de um podcast, Direito ao Grito, da Fnac. Publicou os livros «Em Breve, Meu Amor», um conjunto de narrativas, «O Homem do Trator», poesia, «A Menina Dança em Dezembro», crónicas, e «Tempo», poesia. Os dois primeiros foram também publicados no Brasil.