Sentir estremecer a firmeza metafísica deste chão
Texto de Eduardo Jorge Duarte, poeta e narrador, autor de diversos livros com edição na On y va. Lido em Monchique, durante a Feira do Livro, na tarde de 9 de Agosto de 2025, numa sessão sobre o tema «Monchique como fonte de inspiração»; com mais três autores e duas autoras, e condução de José Gonçalo Duarte, presidente da Junta de Freguesia de Monchique e patrimonialista.
Há duas maneiras de nascer rico: em berço de ouro, por herança, ou em berço de pedra, indistintamente, por bem-aventurança. A mim calhou-me em sorte ser mais um filho desta serra onde, de acordo com os registos do IPMA, há uma agitação diária provocada por pequenos sismos e onde os poetas brotam como águas termais. Descendo de uma classe de trabalhadores pouco letrados em que o dom de contar histórias há várias gerações supera em larga medida o esforço que ponho em cada poema ou em cada narrativa. Por muito que transija, puxando até ao limite do fôlego cada linha como dantes puxava pelo arcaboiço quando transpunha quase diariamente os declives destes montes; por imensamente alanceadas que sejam as leituras que faço – e, nesse particular, muitas delas são os ombros de gigantes monchiquenses como Manuel do Nascimento, José António Guerreiro Gascon, António da Silva Carriço, António Manuel Venda, Glória Marreiros ou José Rosa Sampaio, que me carregam pelo mundo da literatura –, não é possível fazer com que um certo Monchique por mim sonhado e transformado em letra redonda pelo lavor da imaginação seja mais rico do que as infinitas obras naturais deste chão, sempre tão fértil em prodígios, tão multiplicado em promessas, tão abastado em flores e em frutos capazes de renovar a esperança na capacidade renovadora da Natureza, na sua cíclica virtude de ir surpreendendo o que é velho com a física afirmação do que é novo.
Não se escolhe o berço onde se nasce. Essa é, como se sabe, uma das mais insofismáveis verdades de uma existência. No entanto, o privilégio de ter nascido em Monchique obriga-me a lembrar Pero da Silva, fundador do Convento de Nossa Senhora do Desterro como tributo à primeira terra que avistou ao largo da costa algarvia depois de uma tempestade quase tê-lo sepultado no mar, convento hoje transformado numa ruína tantas vezes desenterrada ao esquecimento por alguns dos aqui presentes. Nas poucas palavras que se conhecem deste homem estão as que terá proferido quando foi nomeado vice-rei da Índia e que me aprazem agora repetir como se fossem minhas, usurpando-lhes o sentido de então para o dar a esta hora: «Perdoai, Senhor, a quem me propôs para esta ocupação, porque eu não sou para ela.» Não sendo uma circunstância que resulta de uma escolha, o torrão nativo pode ser determinante, e é, no modo como nos relacionamos com as paisagens que desde que abrimos os olhos nos rodeiam, bem como na maneira como fazemos das limitações e das possibilidades desses horizontes as nossas próprias forças e fraquezas. Por isso, e talvez por ter saído e ter regressado e ter voltado a sair daqui, é num obscuro e complexo jogo de espelhos que vejo este lugar e o tomo como referência geodésica: ora aproximando-me, ganhando energia, ora afastando-me, esmorecendo-a, ora enterrando cada frase nesta terra, ora aproveitando a altitude para que ventos contraditórios renovam o alento de quem deseja ter mundo, contra tudo e contra todos: sobretudo, contra mim. Seja como for, procuro fazê-lo agindo em conformidade para que nem os meus antepassados, nem os meus mais humildes conterrâneos, nem os meus professores, a rocha-mãe onde medram as raízes de onde venho, nem os meus filhos, em nenhum caso sintam vergonha de mim. Faço-o consciente da responsabilidade, mas ainda mais da escassez de artifícios ao dispor no meu íntimo para cumprir-me não nos desígnios de artista, mas no homem aguilhoado pela insanável vontade de que a voz subversiva e inconformada seja mais uma a clamar contra a ordem de um mundo violento, onde os 1% mais ricos detêm a mesma riqueza que os restantes 99%, onde se deixa morrer semelhantes à bomba e à fome, onde ao negligenciar as mudanças do clima se nega o direito ao futuro das novas gerações. Procuro contrariar esses maus caminhos enchendo o branco das páginas como quem enche os caboucos de uma sociedade que quero mais justa, mais sustentável e mais consentânea com os ritmos da Natureza.
Para dar acordo dessa ânsia, não há vez nenhuma que aqui venha que não suba ao «carrapito» da Fóia. Sucede, porém, que lá em cima, onde a pressão atmosférica é sempre mais baixa, rodo 360 graus sobre o eixo de mim próprio e fico com a sensação de que a desmesura dos horizontes é ao mesmo tempo sinónimo de eternidade e de provisório e de que a única ponte possível entre estes antagonismos do tempo se funda nas razões que hoje nos juntam: a cultura. E, nesse aspeto, Monchique mantém ainda bem conservadas os pilares de uma linguagem que resistem ao tempo e que, de certo modo, procuro ver refletidas nos meus textos: é um quase dialeto composto por frases meio cantadas, são os termos que ouvia à minha avó e aos meus velhos, como cacimbar, béqueme, idi, engavelar, temente, vocemecê ou ende querendes, são os gerúndios, que são como os clássicos, livros que nos estão sempre falando, ou são ainda as expressões de força e de resistência gregária: «Mais vale um homem que cinquenta cabrões!» Digam vocês outros vocábulos ou outras expressões, que sabem melhor do que eu!
Manipular esta identidade proteica e muito antiga em tempos vorazes como os atuais, dominados pela tirania fugaz das imagens (às quais se dá preferência em detrimento de milhares de palavras), tempos, dizia eu, terraplanados por frases simples, onde verbos e adjetivos se repetem e se suprimem num canibalismo fonético, não é proeza fácil. Tornar estas paisagens tutelares em territórios universais, enriquecendo-as e fazendo com que se façam expandir e entender noutras latitudes e longitudes como se fossem de lá, é um desafio estimulante e de funda responsabilidade, como pode atestar o coro polifónico de escritores aqui presentes. Mas são os artistas daqui, os que aqui nasceram e os que aqui moram, quem tem o fogo nas mãos, a matéria criativa que permite transformar Monchique numa realização cultural autêntica tão igual ou maior do que as realizações naturais sobejamente conhecidas e visitadas por turistas e curiosos.
Cada qual é para o que nasce, diz o povo. Não sabendo ainda bem para o que nasci, não possuo certeza maior do que esta: cada dia longe destas pedras, destes montes e vales, destas águas cantantes, desta senhora araucária, é um dia mais perto do inevitável regresso. Por isso, certo desse reencontro com os antepassados, não posso deixar de acreditar que é possível escrever versos e contos como os meus avôs e as minhas avós cavavam valados e contavam histórias ao lume da noite, mesmo que não venha a acrescentar qualquer valor ao muito que já foi escavado e escrito e há por escrever por outros, a quem os fados conferiram melhor talento, maior sensibilidade e mais vincada vocação.
E, ainda assim, junto-me, prazerosamente, aos presentes, escritores ou não, poetas ou não, incitando-os a que nos mantenhamos juntos e obstinados, fazendo os possíveis para que das nossas palavras possam sair novos cumes, novas perspetivas de esperança para os Peros da Silva anónimos que, perdidos em tempestades nos mares revoltos da vida, possam encalhar num texto feito desta pedra ígnea e sentir estremecer como nós a firmeza metafísica deste chão.
