Navegadora do mundo
Texto de suporte à apresentação do livro de poesia «Tempo», de Ana Sofia Brito (ed. On y va), na Feira do Livro de Monchique, por António Manuel Venda; tarde de 4 de Agosto de 2025.
Escrevi um texto de duas páginas sobre este livro, «Tempo». Foi para a apresentação em Albufeira, a terra de Ana Sofia Brito, a autora. «Uma porta aberta para um livro», é o título desse texto. Fala da Sofia e do que escreve. Fala também de outra escritora, Clarice Lispector, e de dois descobridores, Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral. Deixo agora Clarice Lispector, depois de ter falado na outra apresentação de como a escritora nascida na Ucrânia (e ainda criança levada pela família para o Brasil) dizia reunir em si diversos tempos: o passado, o presente e o futuro – algo um pouco diferente da perspetiva da Sofia sobre o tempo, precisamente o título deste livro e do poema maravilhoso que surge logo na abertura.
Escolhi os descobridores pelo que a História (com H grande) nos conta. São ambos descobridores de descobertas involuntárias. Eu também vejo neste livro, «Tempo», uma descoberta involuntária. Não da Sofia como navegadora – e a Sofia é uma navegadora do mundo, da vida, da escrita, navegadora num compromisso indestrutível com a Humanidade. A descoberta que vejo é da Sofia escritora, descoberta involuntária, reitero. Percebi essa descoberta, que a Sofia não terá percebido – nem é importante que isso tenha acontecido –, percebi ao ler o livro, já mesmo no formato de papel. Tinha-o lido durante a edição, apenas como documento do computador. E lembro-me de passar por um poema que me explicava uma sensação que vinha de outros poemas. É o poema «Palavras», onde como noutros vejo a Sofia a ir pela escrita. Levada pelo vento do seu próprio talento. Sem medo do desconhecido. E sem medo dos monstros a que no mundo português das letras nos fomos habituando, esse mundo tão marcado pela inveja, pelos egos, pela burla e pela mediocridade. Não vou agora repetir versos do poema, como no outro texto que escrevi. Fico-me por uma expressão, «deixai-me em paz». Eu lia esse poema, e os outros, e pensava – lembro-me bem –, pensava na Sofia indiferente àquele lamentável mundo das nossas letras pequeninas, e tão atenta ao mundo real em que felizmente vivemos; às suas maravilhas, tantas, mas também, principalmente, às suas injustiças, às desigualdades, a múltiplas coisas diante das quais a dignidade nos pede sempre que sejamos capazes de estar – para afrontá-las e, se possível, enfrentá-las.
É a descoberta involuntária, quanto a mim, da segurança. Acontece à Sofia neste livro, onde escreve com uma impressionante tranquilidade, independentemente das suas inquietações. Muitas das que têm vindo a marcar a sua escrita. Mas segura, respirando livre na indiferença para com qualquer coisa que possam apontar-lhe nas palavras. Creio que a Sofia, aqui, escreveu como nos livros anteriores, mas escreveu livre de mil preocupações em relação ao que poderia perturbá-la no seu percurso pela escrita. «Deixai-me em paz» – repito a expressão do poema «Palavras», expressão de despedida para ser livre quando escreve. Creio que a Sofia há muito tempo que é livre fora da escrita. Com este «Tempo», é também livre na sua escrita. Única. Surpreendente. Simples, na sua profundidade e na sua generosa verdade.
Não estou alheio, quando falo na descoberta involuntária, à epígrafe do livro, parte de um poema de Mia Couto. Antes de começarmos a leitura de «Tempo», já damos com estes versos do autor moçambicano: «Fazer da palavra um embalo/ É o mais puro e apurado/ Senso da poesia.» Esta epígrafe como que prepara a descoberta. A autora faz da palavra, de todas as suas palavras, um embalo. E segue o seu caminho. Caminhante. Navegadora. Escritora. Não perdeu a inquietude. Talvez a tenha inclusive aprofundado. Mas chegou-lhe a segurança de não se importar com qualquer julgamento sumário que alguém possa imaginar para o que escreve.
O livro começa com o que deveria ser, ao que julgo saber, uma canção. «Tempo», o poema que encontramos imediatamente a seguir aos versos de Mia Couto. Será uma maravilhosa canção. Acredito. Agora temos um poema. Onze quadras para um tempo que é metade da vida. Desde sonhar alto, tão alto, até descobrir que os anjos não têm asas. Desta descoberta a Sofia está bem consciente, parece-me. Da outra, da segurança na escrita, não. E isso que importa? Não será a segurança naquilo que fazemos precisamente marcada por uma certa inconsciência, boa, natural como a inconsciência que nos acompanha pela vida sobre o facto de respirarmos a cada segundo, acordados, a dormir, a escrever?
Trago este texto para a apresentação do livro em Monchique. Estaremos a uns cinquenta quilómetros da terra da autora. Por estrada. A direito será menos. Noutro poema de «Tempo» encontro Monchique numa volta pelo Algarve, pelo mundo, pela amizade e pela imaginação. «Atravessamos o Algarve de lés a lés»/ – de Monchique a Santo Estevão –/ com medronho no bucho/ para ouvir coisas injustas/ e mesmo assim sobrevivemos.» José Carlos Barros, de quem há décadas digo que que pela sua poesia é o nome óbvio de Portugal para o Nobel, falava há uns meses das quatro páginas e meia deste poema surpreendente e veloz usando a expressão «a grande poesia». Nem um dia depois, um assessor do presidente da nossa república pedia o livro à editora. Queria conhecer, imaginei. E enviámos o «Tempo» para essa terra alta que não é a do escritor espanhol Javier Cercas mas é a terra alta das importâncias, tão alta que sem exagero poderá chegar, nem sei, talvez à décima parte da nossa segunda montanha, que hoje, como sempre, observa a vila, discretamente, sem convocar o vulcão que alguns de nós imaginam.
Este livro segue depois da abertura com o poema que lhe dá o título por cerca de quarenta páginas. São duas dezenas de poemas, mas o livro não se fica por aí. De alguma forma tocando a abertura, apresenta-nos na parte final dez canções. Seria tão bom que algumas dessas canções no livro ainda apenas de versos escritos pudessem tornar-se canções cantadas? Vamos esperar, e acreditar que isso vai acontecer. Nalgumas páginas facilmente intuímos um fado para daqui a uns meses – Mariza poderia cantá-lo. Noutras, podemos lembrar-nos de António Zambujo. E se quisermos ficar por Monchique, temos várias hipóteses: Ariana Ferreira, Fernando Mário, Adriana Marques…
Regresso a Clarice Lispector. Podia regressar aos navegadores. Cabral e o Brasil, país tão presente na vida da Sofia e na sua escrita. Ou Colombo, o homem das duas Cubas, aquela a que chegou há mais de cinco séculos e a nossa, a do Alentejo, onde tem a sua estátua de almirante e a certeza local de aí ter nascido. Cuba, essa Cuba do Alentejo onde a Sofia encheu um teatro bem recentemente. Não. Não regresso aos navegadores. Contrariando o que disse no início, regresso a Clarice Lispector. Os seus diversos tempos, os que dizia reunir em si: o passado, o presente e o futuro. Regresso para um contraponto com a Sofia, que sei que prefere uma ideia de tempo mais como a distância entre algo que acontece e a sua memória. Vamos pela lógica de Clarice, com o passado, o presente e o futuro. Lembro-me tão bem do primeiro livro da Sofia, apresentado numa biblioteca cheia de gente mascarada porque era isso que a pandemia nos pedia. E lembro-me tão bem dos dois livros seguintes, já sem máscara. Lembro-me de dois poemas de um deles, maravilhosos e muito, muito diferentes. E de uma das narrativas, tão bonita, violenta e assustadora que eu cheguei a dizer que nunca seria capaz de escrever algo assim. Sei que é verdade, que não haveria de ser capaz. Isto é o passado, mas esses livros continuam presentes e sei que vão continuar no futuro. Como este «Tempo» que hoje, o nosso presente, apresentamos em Monchique. Também ficará para o futuro. Junto a outros livros. Dois não vão demorar – e são surpreendentes, belos, únicos, sempre únicos, acreditem!
[Texto: António Manuel Venda]
23.08.25
