Os livros por quem os escreve
Recolha de Américo Telo feita no evento «Os livros por quem os escreve», na Casa das Palavras na Serra dos Dois Dinossauros, em Monchique, a 24 de Maio de 2025. Quatro livros de poesia, de Clara Andrade («Areia», 2ª edição), António Manuel Venda («A Eternidade»), Graça Candeias («Quando Escrevo», 2ª edição) e Ana Sofia Brito («Tempo»).
Clara Andrade: lembrar os uivos dos lobos em criança
Gosto mais de escrever do que de falar sobre aquilo que escrevo. Esqueço-me até do que escrevi.
Escrevo há muitos anos, quando me apaixonava. Escrevo para tratar de problemas, de doenças que tinha dentro de mim. É uma catarse, para expressar aquilo que me aconteceu e relatá-lo a mim mesma.
Escrevo como se fosse o meu próprio alimento. Escrevo e não mostro a ninguém. Acaba por ser uma terapia.
Escrevo para me encontrar e depois, se surgir o interesse, publica-se.
Escrevo prosa poética, em texto. Escrever em verso para mim era muito violento.
Entretanto, o António Manuel Venda teve a gentileza de me empolgar, senão não havia este livro, «Areia».
Há a ideia de aspectos da intimidade que não se revela. Pessoas que me conhecem, encontram-me e ficam admiradas pela coragem de me expor.
Tudo o que sai de nós é biográfico. O ser humano tem tudo dentro de si.
Agora já escrevo também em verso. Quem edita livros é porque já escreveu, há um caminho já feito. A alma de poeta ou se regista ou se perde. É como se fosse um refúgio.
Estamos numa corrente de eternidade, estamos num campo que é o paraíso na Terra quando escrevemos. O processo da escrita, quando entro nele, acaba por ser prazeroso.
A coisa que mais me assusta é que a inteligência consiga resolver todos os mistérios, pois precisamos dos seus desafios, dos mistérios. Sou do norte e lembro-me de quando era criança escutar o uivar dos lobos, mas não sentia medo, era como se fosse algo de misterioso que vinha da natureza e que mandava uma mensagem que era maior do que eu.
António Manuel Venda: em busca da amazona em Écija
«A Eternidade» tem vinte poemas, que escrevi ao longo de um ano e meio. Surgem no livro pela ordem em que foram escritos, e originalmente escrevi uns em português e outros em castelhano. Depois fiz as traduções, resultando numa edição bilingue.
No documento que deu origem ao livro aparecem a data e o lugar de escrita de cada poema.
Recordo-me de passar muitas vezes por uma cidade na Andaluzia, Écija, que mal se vê da estrada. É uma cidade de muitas igrejas com torres bem altas. Está aí um dos poemas de «A Eternidade». Em Écija. Lembro-me de imaginar a cidade, que já foi muito importante na Ibéria, imaginá-la num tempo com padres de vestes negras a caminhar apressadamente pelas ruas, controlando tudo. A cidade tem um museu que guarda um tesouro, uma estátua, a Amazona Ferida. No poema caminhamos pelas mesmas ruas dos padres de negro. Até encontrarmos a Amazona, que vem do tempo dos romanos. A chegada dos árabes fez com que a escondessem no tanque romano de acesso aos banhos. Não há muito tempo que foi encontrada e levada para o museu. Também a encontramos no poema.
O poema de Écija e da amazona é o último do livro. Lembro-me de quando sentia que faltava um. E de pensar em Écija e na Amazona Ferida. Mas não imaginava escrever um poema assim. Até que escrevi e senti que o livro estava completo.
Os poemas ajudam-me muito. Os deste livro. Tantos outros.
Graça Candeias: guardar os poemas no coração
A experiência de publicar um livro foi algo que me surpreendeu, pois não acreditava no que escrevia. Tinha vergonha de me expor. Mas sentia uma certa alegria quando escrevia. Só comecei a acreditar mais pela reacção das pessoas. Duvidava se alguém sentiria o que eu escrevia.
Quando apresentei o meu livro aos alunos do nono ano perguntam-me se fui eu que escrevi aquilo. Tento sempre motivá-los para que também escrevam e leiam poesia.
Todos os poemas têm uma história por detrás. Descobri-me através dos momentos a sós.
Depois desta experiência, acho que não sou eu, não me lembro de quando escrevi. Mas na escrita encontrei a resposta para problemas que tinha. A dor que sentia levava-me a perguntar por que me tinha acontecido a mim. Agora já aceito. Está tudo resolvido.
Já escrevo coisas diferentes. Sou desequilibrada entre o emocional e o racional. Já me tenho levantado da cama para escrever. Guardo os meus poemas no coração, que é do tamanho do mundo.
Sofia Brito: um livro que é a voz da alma
Escrever um livro faz-me sentir que pertenço a um mundo especial.
Há uma parte de mim em que me sinto como se saltasse na memória, acrobaticamente. E como tenho uma tendência para fazer rir as pessoas, quem não tem esse lado pensa que eu sou maluca. Passei muito tempo com a minha avó, e já era assim.
Quando escrevemos sobre angústias tão profundas que temos, há que encontrar na escrita uma certa forma de alívio. Um livro também é um conjunto de estados de espírito, e este livro é a voz da minha alma. É transparência. Uma oscilação entre estados de espírito, de amores platónicos.
Confrange-me a maneira como tratamos hoje os velhos. Faz-me pensar que vamos todos acabar abandonados.
Há tempos dei por mim a rezar e descobri que uma oração é nossa maior verdade.
