Estamos juntos para sempre
Texto da escritora Ana Sofia Brito, de suporte à sua intervenção no evento comemorativo dos quarenta anos da Escola Secundária de Albufeira (ESA), na tarde de 16 de Janeiro de 2026
Em primeiro lugar, agradeço o convite para estar aqui hoje. É uma honra sermos lembrados mais pelo carinho do que pelo interesse, mais pela reciprocidade do respeito do que propriamente pelos estatutos alcançados. Ingressei neste estabelecimento de ensino aos catorze anos, na virada do século, por isso já levo rugas suficientes no rosto para dizer com propriedade: era tudo tão diferente.
Este não é um elogio ao passado; é, antes, um reconhecimento da relevância da memória para quem deseja que o futuro não desista de rumar à dignidade humana.
No verão que antecedeu esse ano letivo, eu tinha andado a devorar tudo o que era livros e artigos sobre as histórias de Maria Lamas e Maria de Lourdes Pintassilgo, e tinha visto umas dez vezes o filme «Evita» (a biografia de Eva Perón) – obcecadíssima por estas três mulheres.
Por isso, inscrevi-me em Económico-Social – era o caminho mais direto para depois saltar para a ciência política. Imaginava-me primeira-ministra de Portugal aos quarenta anos… mas felizmente esta escola meteu-me juízo na cabeça.
Lembro-me de uma crítica numa redação de um teste de Língua Portuguesa, no décimo primeiro ano, se não me engano. A professora Lurdes Ferrão escreveu a vermelho: «Abordou bem o tema.» Reparem, passaram vinte e cinco anos e eu nunca me esqueci desse «abordou bem o tema» – ainda que não faça a menor ideia da nota que tive no teste. Sempre me preocupei mais em abordar bem os temas do que com notas. A redação pedia para refletirmos sobre a importância da escola, e todos os colegas se dedicaram a falar sobre a importância do estudo, das avaliações e da formação – para mais tarde sermos alguém na vida. Eu escrevi que a importância da escola se ancorava na solidificação das relações humanas. Na aprendizagem do respeito pelo próximo, da igualdade e da gentileza para com quem nos rodeia – independentemente do seu posto. Na aceitação de que a hierarquia é imprescindível para o bom funcionamento de um organismo. Que a escola servia para nos ensinar que ser alguém na vida é exercer amabilidade para lá da nossa casa, do nosso quintal, da nossa família, da nossa cultura, da nossa maneira de pensar, da nossa religião, do nosso umbigo. Para nos preparar para trabalharmos em coletivo. E que era dentro deste recinto que se aprendia a viver em comunidade, a saber ouvir as diferenças, a ensaiar para a vida lá fora.
Já nessa redação eu mostrava que as palavras me importavam muito mais do que números e metas. Hoje, só me posso rir de quem diz que não é com poemazinhos que isto lá vai – porque o riso nem sempre é de alegria, pode ser de escárnio, de pena, de desconsideração até. Professora Fernanda Lamy (minha querida amiga até hoje) e professora Lurdes Ferrão, obrigada por me terem apresentado a poesia, por me abrirem as portas da alma à beleza! Atualmente eu não tenho a menor dúvida de que é mesmo com poemazinhos que o mundo lá vai. Graças a vocês não sou primeira-ministra de Portugal, mas sou poeta. Pois eu acho que quem conhece a poesia, conhece o coração da humanidade; a poesia é irmã da empatia. Os números, as metas, as notas são irmãos do seu oposto – são irmãos do egoísmo, da egolatria.
Foi nesta escola que assisti aos primeiros concertos, na cantina; havia muitas bandas. Tínhamos de nos ocupar com qualquer coisa, não havia smartphones, por isso contentávamo-nos com baterias, pianos, guitarras, microfones, acordéons, baixos… e escrevíamos letras. Foi nesta escola que fiz rádio pela primeira vez, não era um canal do YouTube, era uma emissora de rádio a sério. Foi aqui que me iniciei no teatro, através da parceria entre a escola e o grupo de teatro da Câmara Municipal de Albufeira. Foi aqui que me apaixonei a ponto de rebentar com o coração todo pela primeira vez – e não há cálculos que meçam o mérito desse momento, não há avaliação possível nem quadros de excelência para as principais coisas da vida. Foi aqui que ouvi pela primeira vez uma voz coletiva levantar-se contra a violência no namoro, contra a misoginia. Foi aqui que convivi harmoniosamente com os primeiros imigrantes brasileiros que chegaram a Portugal. Foi aqui que testemunhei uma onda de solidariedade gigante para com a diferença – quem é dessa época há de lembrar-se da mobilização que houve entre toda a gente e todos os meios para trazer o conforto possível ao Turima, depois do acidente. Foram alguns de vocês, aqui, que me ensinaram que a diferença não é uma aberração, uma aberração é a indiferença. Nesse ano fomos um só – alunos, professores, funcionários e Turima –, fomos uma verdadeira família, ainda que fora da norma. Foi nesse tempo, também, que conheci o luto e a solidariedade da dor coletiva; aquando das precoces mortes da Cláudia, do Chorão, do Tua e do Cabé – também eles merecem ser lembrados hoje.
Permitam-me, para contextualizar, que me apresente um bocadinho mais a fundo – não por um exercício de vaidade, até porque não são características propriamente bem vistas nos dias que correm –, mas para reforçar a ideia sóbria, e tão abundantemente negligenciada, de que a diferença não mata, não agride, não esfola, não rouba.
Nasci em Albufeira, mas podia ter nascido noutro lado qualquer e ser a mesma pessoa. Quando saí daqui fui estudar para a universidade, em Coimbra, onde me casei com um imigrante brasileiro – de quem acabei por me divorciar sem precisar do seu consentimento. Mas antes disso tivemos uma filha, portanto, uma luso-brasileira – portuguesa de segunda, como agora se diz. A minha filha já é mãe e eu sou avó de um menino albufeirense, filho de mãe meio brasileira e pai meio angolano. Sonho com o feliz dia em que o meu neto, bem como todos os meninos da sua idade, venham estudar para esta escola nas mesmas condições em que eu o fiz, precisamente por merecerem os mesmos direitos independentemente da proveniência – nunca aceitarei ser mais do que ninguém pelo facto de aqui ter nascido. Nos verões, mesmo estando fora, vinha para Albufeira trabalhar como artista de rua. Sim – não fica bem dizer isto, eu sei –, fui artista de rua durante mais de dez anos; pagava licenças, taxas e todas as outras contribuições, para levar às pessoas o que a minha cidade não oferecia em centros culturais – inexistentes. Depois disso, estudei teatro físico em Barcelona, onde também trabalhei como artista de circo; trabalhei na India em 2015 e 2017 (onde fui muito acarinhada); mais tarde voltei para o Brasil (país que me concedeu residência e nacionalidade), onde estudei teatro (no Tablado) e Letras (na Faculdade Estácio de Sá, do Rio de janeiro) – ainda bem que fiz Economia aqui no secundário. Voltei a casar, desta vez com uma brasileira – com A.
É tão digno podermos escolher onde viver e com quem casar!
Recebi uma distinção em 2021, como Mulher Albufeira na categoria de Artes, e dei-me conta de que, afinal, há quem nos veja. Em 2023 fiz uma digressão pelo Brasil a apresentar os meus livros e outra a falar em escolas, universidades e festivais de cultura sobre literatura portuguesa.
O Ronaldo pode ser o português que mais amealhou tostões, carros e views no TikTok (ou lá como é que isso se chama), mas nunca será intemporal como Camões, Sophia, Pessoa, Florbela, Agustina, Lídia Jorge, Ramos Rosa, Amália, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Natália Correia, Maria Teresa Horta… Enfim, é tudo uma questão de mentalidade.
Tenho cinco livros publicados em Portugal e dois no Brasil. Colaboro com três jornais – com crónicas e artigos. Tenho um programa literário numa rádio. E um podcast cultural na Fnac. Continuo a trabalhar como artista de circo, sete meses por ano (todas as noites) – é impressionante como os malandros dos artistas arranjam tempo e disposição para trabalhar. Uns inúteis.
Obrigada, professora Anabela, pela sua generosidade! – o episódio das cábulas ensinou-me mais do que muitas lições teóricas. É um orgulho ter virado sua amiga para vida, hoje você sabe que é uma alegre visita da minha casa. Só podia ser professora de Filosofia – a disciplina mãe de todas as disciplinas. Tanta falta nos faz mais filosofia, mais pensamento crítico, mais cabeça com coração. Alegra-me tanto, o modo atento e presente com que acompanha todos os meus passos.
Professora Cristina Moniz, de Filosofia também – obviamente, obrigada por me ter compreendido no dia em que um réptil me saiu pela gola da blusa em plena aula! Afinal, eu só estava a tentar salvar a vida do bicho, e a professora agiu em conformidade com a disciplina que lecionava – ser coerente é tão valioso…
Professora Eurídice, fui ver o meu histórico escolar para saber que nota tinha tido a economia no décimo segundo ano: foi um generoso 11. Soube-me a 20, confesso, tendo em conta o número de vezes que fui expulsa da sala – por culpa da minha enormérrima estupidez adolescente. Ensinou-me mais com a sua postura do que com a matéria do currículo. Agradeço-lhe por tudo, admiro-a muito. Nunca me esquecerei de si. Guardo até hoje a lembrança do Che Guevara que me trouxe de Cuba. Lembra-se disso?
Professora Emília Oliveira, obrigada também! Por ter sido uma das que me aturou e cuja benevolência eu sublinho e enalteço. Viva a Sociologia, ciência indispensável à sobrevivência da nossa vulnerável espécie. Para variar, não me lembro de nada da matéria, mas lembro-me nitidamente do dia em que nos trouxe um livro de ficção para a aula – «Filhos do Vento», de Francisco Moita Flores. Fiquei tão fascinada que o pedi emprestado… e a professora emprestou-mo. Uma história inesquecível, com duas das personagens mais cativantes da nossa literatura (o vagabundo Grelinhos e o médico Quitério, que ganhava ovos, galinhas e legumes em troca das consultas… dois sábios). É disto que é feita a pedagogia.
Professor Gabriel Batista, posso-me gabar de ter tido o diretor de turma mais estiloso da escola – acho que nunca faltei a uma aula sua, e olhe que não era por gostar de Geografia: é que dava gosto estar perto de si, um verdadeiro camarada dos seus alunos. É tão formador ter em quem confiar.
Professora Paula Godinho, outra diretora de turma com conduta irrepreensível, sempre tranquila, serena. Ainda esta manhã nos vimos noutra escola, onde agora leciona e para a qual fui convidada para apresentar o meu livro mais recente. É sempre tão bom encontrá-la por aí.
Professor Canelas, obrigada pelas visitas de estudo a Coimbra! As primeiras aventuras nunca se esquecem.
Professora Cristina Moniz, Professora Célia Pedroso e Professora Maria Falcato – que sorte a minha ter frequentado esta escola numa altura em que era coordenada e dirigida por mulheres. E que mulheres. Agradeço-vos o teatro – pois ganho a vida como artista performativa. Agradeço-vos a cantina aberta para os nossos concertos barulhentos – há muito que não toco na minha guitarra, mas ela está exposta num canto especial da sala para me avivar diariamente a memória desses tempos felizes. Agradeço-vos a rádio – outra atividade que ainda exerço com grande paixão. Agradeço-vos os concursos de escrita – graças a essa semente publiquei os meus livros, lutarei para publicar outros tantos e escrevo semanalmente para dois jornais. É por isto tudo que a ESA nunca saiu de mim – devo-lhe muito.
Não fui uma aluna fácil de aturar, reconheço, fiz demasiadas asneiras, fui para a rua incontáveis vezes e disso não me orgulho. Mas também não lamento, tive a minha rebeldia na idade certa, prefiro assim, é mais sensata do que a rebeldia depois dos cabelos brancos.
E não obstante – chegou-me aos ouvidos –, pelos vistos sou a ex-aluna que mais visita esta escola em ações não remuneradas, seja para falar de literatura, de teatro, artes no geral e outras tantas coisas nas entrelinhas… é porque, apesar de os artistas não servirem para nada, eu ainda sei de uma coisa: é que a vida só faz sentido se for uma doação, seja em que escala for. Nem todos somos Camões ou Lídia Jorge, mas todos temos as nossas próprias pernas. Aquilo que venho cá fazer com tanta frequência – e nunca recusei um convite – é retribuir, retribuir à ESA todo o amor (sim, amor… eu não tenho medo da palavra amor, os poetazinhos não têm medo das palavras). É por isso que eu nunca nego vir cá, para vos retribuir o amor que dedicam aos nossos jovens, portanto, ao nosso futuro. Jamais conseguirei fazê-lo na medida justa, mas enquanto vos fizer sentido, estarei presente. Porque a vossa luta merece tudo, a vossa luta transforma, dignifica, eleva – apesar de toda a exaustão e da injustiça que carregam às costas contra a incompreensão generalizada de um leque inteiro de entendidos de sofá.
Permitam-me que vos admire sem reservas.
Estamos juntos para sempre, porque uma casa não se abandona, a menos que essa casa se transforme na boca de um tubarão. Desejo-vos toda a felicidade do mundo, e muita resistência, tanta resistência quanta for necessária para que nunca se transformem na boca de um tubarão. Parabéns, obrigada e muitas felicidades!
