O amor está em tudo

Texto do escritor Pedro Jubilot, de suporte à apresentação do livro «As Trinta Parábolas do Amor Imperecível» (ed. On y va), de Fernando Cabrita (Casa Álvaro de Campos, em Tavira, 12 de Dezembro de 2025)

 

Apresentamos na associação Casa Álvaro de Campos, em Tavira, o novo livro de Fernando Cabrita, autor que tem uma vasta obra publicada e inúmeros livros premiados.

Mas comecemos por destacar um homem que percebeu há muito este novo tempo para a cultura e para a literatura, isto é, o escritor deixou de ser apenas o criador fechado na sua torre, a produzir uma obra que iria mais tarde chegar ao público. A situação mudou, e é preciso que o autor se envolva com o seu meio artístico e participe nos processos de produção, divulgação e distribuição dos seus livros, e mesmo interaja com outros áreas culturais. Algo que o Fernando Cabrita faz há imensos anos. Tem organizado eventos e tertúlias, feito crítica e artigos literários em diversos jornais; criou revistas e uma editora, a Gente Singular, e tudo isto aconteceu simultaneamente com a sua produção escrita – nunca deixou de publicar os seus livros. Teve um enorme papel no incentivo e na divulgação de autores já fora de atividade, mas sobretudo daqueles que hoje escrevem ou que começaram recentemente a publicar. Estes actos de consciência cívica e cultural terão culminado no grande evento literário acontecido a sul nos últimos anos (entretanto parado) – inédito festival literário «Poesia a Sul», feito a partir de Olhão, terra de origem do escritor.

Este festival trouxe a Olhão escritores de todo o mundo, e depois levou-os a todo o mundo através da tradução e da edição dos seus poemas.

É também muito importante o seu papel na já longa divulgação dos escritores do Algarve, na Andaluzia, primeiro, e depois por toda a Espanha. E lá, onde está traduzido e editado, é um autor reconhecido pelos seus pares, por editores, pela crítica, pelo público e pelas organizações dos numerosos festivais em que participa.

Este livro de que hoje se fala, «As Trinta Palavras do Amor Imperecível», tem edição da On y va, editora muito ligada a Monchique, apesar de ter sede em Lisboa.

Como muitas editoras que se prezem, também a On y va deseja ter um autor como Fernando Cabrita no seu catálogo, recebendo e oferecendo livros de qualidade já demonstrada.

Mas também aqui devemos destacar a postura do autor face à sua publicação nestas editoras – com menos projeção em termos de mercado e onde que atingir topos de vendas não será certamente o seu propósito. O seu genuíno gosto em apoiar, divulgar e participar nas suas acções, contribuindo para valorizar um trabalho que se quer feito da contribuição de todos os envolvidos.

E no que diz respeito à editora On y va, refira-se o seu trabalho pensado, aturado e de enorme gosto e execução. António Manuel Venda, também escritor, tem desde a Meia Viana, em Monchique, a partir da Casa das Palavras na Serra dos Dois Dinossauros Adormecidos, construído uma coleção de edições de vários géneros literários e de autores de diversas origens. São afectuosas as suas tertúlias naquela casa, que há dois anos também realiza, em Julho, o Encontro Internacional de Poesia «Verso a Verso».

«As Trinta Parábolas do Amor Imperecível», de Fernando Cabrita, é um livro que se anuncia no seu próprio título, e em termos de extensão, género literário, forma, e no seu tema ou tese. Tem trinta poemas, enunciados por ordem, da Parábola Primeira à Parábola Trigésima. E todos com um subtítulo. E para aqui tomemos em conta a parábola, enquanto narrativa curta; são curtas as narrativas aqui apresentadas, não ultrapassando três páginas, e às vezes quatro versos; e podem transmitir um conteúdo moral, uma verdade importante. Essa verdade, aqui, tem por tema o amor.

Mas o autor chama a atenção para que «ainda que o poema fale de guerra, de tristeza, de tragédia ou de perda, sempre e para sempre adejará nele o amor o seu invisível voo». Ou como encontramos num verso: «o amor está em tudo saltita na vida.»

O amor está em tudo. Está também, obviamente, em todo o livro. Mas um livro de poemas de amor não é apenas um livro do amor, da paixão e do sentimento do eu e tu poéticos, mas do amor em tudo. Não estamos sozinhos no mundo, na vida. O amor também vive muito a partir do seu contexto histórico, cultural, político, que decerto interfere. E aqui também do contexto literário, através das referências históricas e literárias, com que o escritor dialoga, desde os clássicos aos contemporâneos.

Apenas a título de exemplo, e dado o local onde nos encontramos hoje, na vigésima parábola temos as «cartas de amor ridículas» de Álvaro de Campos, e na seguinte algo nos remete para Alberto Caeiro.

Vou ler-vos a Parábola Vigésima Sétima. Atentem neste breve poema, belo, intenso e perfeito, em apenas quatro versos, respeitadores de rima, ritmo, métrica, e usando vocábulos comuns. Se vocês são daqueles que acham, ou ouviram dizer, que o autor escreve textos longos, demasiado intelectuais, com muitas referências históricas e culturais, deliciem-se com este  «Balada triste de Pedro a Inês», em que um escritor que não tem nada a provar talvez quisesse responder a essa provocação.

Eu que tudo poderia porém não pude
antever a adaga a espada o gume
a horrenda fria sombra o ataúde
onde és gelo e cinza e nenhum lume

Foi bem sucedido, parece-me. Seja através da suas odes ou destas curtas parábolas de amor/ amores eternos, a sua escrita apresenta a mesma sensibilidade e a mesma força de expressão, a mesma sedução de inteligente descarga poética.

A imperecibilidade do amor é uma tese que o autor explicará de seguida [Fernando Cabrita interveio a seguir a Pedro Jubilot]. Poderão também ouvi-lo numa próxima oportunidade, talvez em Monchique, ou noutro lugar; ou entendê-la com a leitura do livro.

[Texto: Pedro Jubilot]