Um verdadeiro farol
Texto de Carlos Café sobre o romance Farol – Luzes no Caminho de São Vicente (ed. On y va), de Clara Andrade, suporte da apresentação em Lagoa, na Biblioteca Municipal, a 26 de Junho de 2026. Carlos Café é professor da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, e presidente da Assembleia Municipal de Portimão.
Vou falar-vos deste livro. Não como crítico literário (que não sou, nem tenho quaisquer ambições de ser), mas como um leitor. Por isso, as palavras que se seguirão são, vendo bem, a continuação dos rabiscos com que o ia anotando (como fazem o Xavier e a Júlia…) e das emoções que ia vivendo ao lê-lo.
Este livro fala-nos de uma viagem. Ou melhor, como tentarei mostrar ao longo deste breve texto, das viagens da protagonista: no mundo fora de si e ocorridas dentro de si.
Tal como a viagem de Júlia ao longo do Caminho de São Vicente tem onze percursos, esta minha leitura destacará onze filões possíveis de exploração da obra.

O primeiro, para vos aguçar o apetite, é a gastronomia. Considerem-no como a «entrada» deste menu. Ao longo da caminhada, os protagonistas (Júlia, Vicente e Xavier) vão degustando vários petiscos, essencialmente típicos do Algarve: ensopado de enguias, torta de alfarroba e medronho, peixinhos do rio fritos em molho de alho, louro e vinagre, batatas cozidas, pão e tomate, queijo fresco de cabra com doce de abóbora, chá de ervas e de flores da serra, fatias de folar com canela e erva doce, vinhos tintos negra mole, xerém de berbigão, figos secos com amêndoas, sumos de laranja de Silves e bolas de Berlim. Ah, e cerveja. Por vezes, muita cerveja.
Em segundo, uma dimensão ético-política, com a denúncia de um paradigma de progresso «obsessivamente dominados pelo trabalho e pelo desempenho» que nos conduz à exaustão. Registo aqui o lamento da Júlia: vivemos sob as exigências do PIB (Produto Interno Bruto) em vez de nos preocuparmos com o FIB (Felicidade Interna Bruta)…
Terceira paragem: a (in)estética da paisagem, exemplarmente expressa nestas palavras: «Temos o dom de fazer desaparecer as coisas que cá estavam, há eras e eras.»
Que nos conduz com naturalidade a outra das dimensões deste livro – a celebração do olhar, tão cara a Alberto Caeiro, poeticamente descrita assim: «ver o mundo diretamente na sua sacralidade nua e primordial», «o primeiro olhar que, assombrado, vislumbra a originalidade do mundo», «uma festa para os sentidos ainda virgens das coisas deste mundo», «uma identificação total com o que é visto», «um olhar indistinto, puro, sincrético, porque nada foi ainda separado», «só cordão umbilical». É a inocência do primeiro olhar da criança que vislumbramos aqui. Ou, como diria Caeiro:
Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...
Os pontos 5 e 6 deste percurso são inevitáveis: Farol é, também, um fascinante roteiro turístico e um grito de revolta contra o esquecimento do interior do Algarve.
O capítulo 7 é provavelmente o mais ricamente filosófico de todos: a natureza e a função da arte. Partindo da definição de Agostinho da Silva segundo a qual a função mais elevada do ser humano é criar, como um «poeta à solta», a autora retoma a tese de Oscar Wilde afirmando que a arte nos salva da vida, uma vez que «o artista inventa novas leis, novos ritmos», ou seja, o artista é o criador de mundos possíveis. Um exemplo disso são as palavras, essas «coisas poderosas» onde «nos encontramos com o mundo, com os outros, connosco». Irene Vallejo decerto concordaria, ela que escreveu que «somos seres entrelaçados com narrativas, bordados com fios de vozes, de história, de filosofia e de ciência, de leis e de lendas».
Paragem número 8: a amizade. O livro celebra a amizade e convoca diversos amigos. Protagonistas reais ou imaginários: Júlia, Vicente, Xavier, Sónia, Olga, Gabriel, as irmãs Emília e Lurdes, Edgar Allan Poe, Thoreau, João de Deus, Chopin, Al-Mu’tamid, Ibn-Amar, Paganini, Bukowski, David Bowie, António Ramos Rosa, Herberto Helder…
Chegados ao percurso 9 desta viagem, decerto não se surpreenderão que vos diga que Farol – Luzes no Caminho de São Vicente é, afinal, uma carta de amor muito especial: a carta de amor que Júlia vai escrevendo sobre si mesma e para si mesma.
E, no décimo passo do percurso pela obra, retomo a afirmação com que o iniciei: este livro fala-nos de uma viagem, ou melhor, das viagens da protagonista – no mundo fora de si e ocorridas dentro de si. Como na viagem de regresso de Ulisses a Ítaca, é simultaneamente geográfica e espiritual; como em Siddartha, de Herman Hesse, é uma procura do genuíno «eu»; ou, como em O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago, é uma metáfora da vida, em que todos somos viajantes em busca de uma ilha que ainda não aparece nos mapas, porque tem essencialmente a ver com aquilo que podemos vir a ser.
Todas as viagens são como uma corajosa descoberta do mais desconhecido dos mapas: o interior de nós próprios. É uma viagem inevitável, mas temerária, fascinante, mas ameaçada por nevoeiros, tempestades e riscos de naufrágio.
Esta belíssima obra de Clara Andrade adverte-nos para os desafios, mas também nos sugere que há sempre um caminho que teremos de ser nós a descobrir.
Neste sentido, esta obra é um verdadeiro farol.
27.06.26
