Juntar tudo de novo
Texto de José do Carmo Francisco sobre o livro de poesia A Praia (ed. On y va), de António Manuel Venda; publicado no blogue Filamentos.
António Manuel Venda (n. 1968) apresenta em A Praia, o seu sexto livro de poesia, dezoito poemas. A edição é de On y va, a foto de Maria Ramires e o grafismo de João Paulo Fidalgo.
O ponto de partida é o poema «a praia», que como qualquer poema digno desse nome e desde sempre ao longo da História se articula entre a canção e a reflexão – neste caso, canção triste entre lágrimas e sangue pisado. Uma frase diabólica, «isto não é para estas urgências», foi pronunciada por alguém com maldade de guichet e para quem a palavra «humanidade» é um mistério e uma coisa distante do seu reduzido horizonte.
Não por acaso, o livro é dedicado à memória do pai e também à memória da mãe do autor, «abandonada pelo estado português e pelas suas instituições».
No início do livro surge uma citação de Piedad Bonnett, cuja primeira frase é a seguinte: «Deitaram sal sobre os meus olhos.» É o sal das lágrimas do homem que foi menino e esteve com a avó materna numa feira onde homens de olhos vendados tentavam partir panelas e lá dentro podia haver água ou um pombo. Muitos anos depois, no mesmo lugar, há um carro funerário onde o homem que foi menino vê uma urna a caminho do cemitério. Pensa na panela de barro, de onde pode fugir um pombo pronto a voar. Pensa em tantas coisas.
Os dezoito poemas do livro têm cada um a sua particular oficina e o seu particular resultado. O primeiro e o último são o pranto e a lamentação da morte de quem deu a vida ao autor. Não se trata de um caso particular. Pelo contrário, estes poemas não passam ao lado de ninguém. Perante eles, não se consegue ficar indiferente. De modo límpido, incisivo e eficaz, junta-se de novo tudo o que a morte separou.
13.08.26
13.08.26
