Os livros são como nós, pessoas…
Texto de Paula Pato, cronista e redatora publicitária, sobre o romance O Império das Ostras (ed. On y va), de Rodolfo Miguel Begonha, suporte da intervenção no lançamento em Lisboa, na Universidade Lusófona (Auditório José Araújo, da Biblioteca Victor de Sá)
Boa tarde!
Agradeço o convite do Rodolfo para a apresentação deste seu livro, mas…
… tenho de confessar uma coisa…
É que…
É que eu não li o livro. Eu não li este livro do Rodolfo.
O Rodolfo enviou-me o PDF e eu pensei: «Não… não vou ler o livro do Begonha no ecrã frio e frígido do meu computador, nem pensar! Está completamente fora de questão!»
E porquê?, podem perguntarão…
Por que raio é que esta sujeita é convidada para apresentar o livro do Rodolfo e não o lê?
Não o li – ainda – porque sinto que os livros são como nós, pessoas…
Peço-vos que sigam o meu raciocínio porque talvez muitos de vocês sintam o mesmo que eu e assim possam desculpar-me pelo facto de vir para aqui botar discurso sem ter lido o livro.
Os livros, tal como nós – nós pessoas sem capas de ostra, evidentemente –, gostam que os acariciemos, gostam de ser tocados na pele… no que é a sua pele… a capa, a contracapa, a lombada, as folhas. Gostam de ser manuseados e que lhes sintamos o peso e a textura do seu corpo físico…
Ler um livro no virtual, no meu entender, mata todo esse tipo de contacto e aproximação à obra.
Por isso, recusei fazê-lo com um livro que, tenho a certeza, vai merecer a minha imersão plena nas águas da imaginação do Rodolfo, águas que escondem impérios desconhecidos e criaturas inimagináveis.
Os livros são como nós, pessoas, porque adoram que os levemos a passear. Gostam de nos acompanhar em paisagens bonitas, de partilhar connosco os nossos espaços de encantamento, de paixão ou de relaxamento – a praia, por exemplo – e que os deixemos sentir a areia, que se cola às páginas exatamente como se cola à nossa pele depois de sairmos do mar.
Os livros são como nós, pessoas, e precisam disso para revelarem o mais delicioso de si. Precisam da areia, do sal do mar, das gotas de chuva, da gordura das batatas fritas, das nódoas de vinho tinto e das manchas do bronzeador, do suor fresco da relva onde os pousamos ao nosso lado, num intervalo de leitura…
Mas…
… tenho de vos confessar igualmente que, como sou um bocadinho voyeur com os livros, não resisti e traí este meu princípio de ler cada livro onde imagino que ele goste mais de ser lido.
Não resisti, como vos estava a dizer, e permiti-me uma leitura em diagonal pelas páginas de O Império das Ostras. Sobrevoei o índice, a contracapa, as badanas e alguns parágrafos… e repararei que, na sua «quase introdução», o Rodolfo escreve: «As coisas não são imutáveis, não são fixas, mudam precisamente porque muda o nosso conhecimento… Se tudo estivesse definido e dominado imutavelmente pelo que já sabemos, a nossa vida teria menos interesse, não haveria mistérios, nem surpresas, nem capacidade para sonhar.»
Foi neste momento que tive uma epifania e descobri que…
O Begonha é uma ostra!
O Rodolfo Begonha é a mais estranha e insólita ostra deste seu romance, acreditem em mim. E já vão entender porquê…
Nas apresentações de livros, fala-se sempre muito do livro e muito pouco do seu autor. Por isso decidi fazer o contrário:
Não falar do livro – que não li, pelas razões mencionadas –, mas falar do seu autor.
Rodolfo Miguel Dinis Dos Santos Bacelar Begonha.
Conheci o Rodolfo há cerca de 20 anos e, ainda hoje, ele é para mim um quase-desconhecido, embrulhado neste bonito e sumptuoso nome.
O Rodolfo Miguel Dinis Dos Santos Bacelar Begonha é tudo o que parece não ser, e este seu lado mais secreto e surpreendente tenho vindo a descobri-lo através da sua escrita e dos seus romances improváveis.
Quando o conheci, há quase vinte anos, juraria que o Begonha era um betinho com um currículo académico-profissional premium.
Tímido, muito educado, muito bem-comportado, muito certinho, muito composto, muito dentro da caixinha da Gestão, dos Sistemas Sócio-Económico-Organizacionais, da Atividade Económica, das Sociologias Económicas e das Organizações, e Mestre e Doutor e Consultor e Gestor e Estratega e Diretor e Adjunto e… ufff!
Enfim… obviamente um betinho incapaz de partir um prato só porque sim ou de dizer um palavrão só para lhe sentir o sabor da subversão.
Enganei-me…
Ao longo destes anos, tenho vindo a descobrir que o Begonha tem um imenso lado desafiador, criativo e sonhador que se esconde sob a capa de Betinho Begonha. Betinho Begonha que, na verdade, é uma ostra muito especial, com pérolas finas e refinadas lá dentro, pérolas que se revelam em toda a sua escrita.
Porque não é só o mar daquela povoação insular do Sul da Coreia, onde decorre a ação deste romance, que esconde uma espécie desconhecida de ostras com características absolutamente fantásticas.
É o livro do Rodolfo Begonha que esconde uma espécie desconhecida de autor, com características absolutamente surpreendentes e potencialidades assombrosas.
O Império das Ostras é um livro que nos vai fazer descobrir coisas para além do imaginável sobre a imaginação do Rodolfo. Como se lê na contracapa, «de surpresa em surpresa, vamos ao encontro da verdade e da ficção, da biologia e dos sentimentos, da cultura real e dos mitos».
O Rodolfo Miguel Begonha cativa-nos pela forma como a sua escrita e a sua capacidade inventiva leva a que mergulhemos nas zonas mais profundas da natureza humana, do sonho, do esotérico, da ficção, da poesia, do inexplicável e também da frieza cirúrgica e metálica da racionalidade científica, numa linguagem ora macia e aveludada, com pérolas de poesia lá dentro, ora tsunâmica e avassaladora, com mares de revelações e emoções inesperadas.
E, quer acreditem quer não, o inesperado é o mais esperado na obra e na pessoa do Rodolfo Miguel Begonha.
Parabéns, Rodolfo! Por este e por todos os teus livros, onde te tens vindo a revelar e a surpreender-nos como escritor e como pessoa. Vai ser um prazer levar-te comigo este verão, para a minha praia de eleição, através da companhia do teu Império das Ostras.
[Texto: Paula Pato]
14.08.26
