Tradição e inovação
Texto de José do Carmo Francisco, jornalista, narrador e poeta, a partir da leitura do livro Agora É Aqui (ed. On y va), do poeta espanhol Julio César Galán; José do Carmo Francisco colabora com a revista Filamentos, da Universidade Estadual da Califórnia (Fresno, Estados Unidos), e com os jornais Diário Insular (Angra do Heroísmo, Açores), Correio do Ribatejo (Santarém), O Casapiano (Lisboa) e Milénio Stadium (Toronto, Canadá).
Agora É Aqui junta nas suas 150 páginas poemas escritos entre 2007 e 2018. Editado pela On y va em versão bilingue português/ castelhano, tem tradução de Miguel Filipe Mochila, grafismo e paginação de João Paulo Fidalgo e foto do autor de Yolanda Castaño.
O livro abre com um convite do autor: «Gostaria que imaginassem o poema a vosso gosto.» Julio César Galán nasceu em Cáceres em 1978 e tem obra poética traduzida em inglês, francês e italiano, para além de grego, árabe e checo. Neste livro, os seus poemas incluem referências a nomes das artes e das letras como Joy Division, Charlie Parker, Antonio Vivaldi, Van Morrison, Jackson Pollock, Sergio Cammarieri, Roland Barthes, Rafael Alberti, Miguel de Unamuno, Rubén Darío, Albert Hidalgo e Lorde Byron – entre outros.
Na página 11, o poeta fala de si: «Humanizo as coisas// Sussurram-me que oculte/ o meu coração por detrás dos seus conflitos. /São importantes só por si/ e abrem-me cavernas/ onde sentir a minha essência./ Dizem-me quais/ as solidões/ que se soltam e afloram.» Mas não se remete apenas ao seu mundo; o vegetal e o animal comparecem. Primeiro o vegetal: «Somei estes salgueiros/ e o resultado é infinito./ Abriu-se entre soma e soma/ um sim de braços e uma lonjura/ de gentes e uma clareza de desejos./ Tudo quanto é escrito trazemo-lo cá dentro.» (página 29) Depois o animal: «Com cuidado e seguindo os matizes do sol o melro dá meia volta (não era impossível) e sem notar a sua solidão abisma os meus olhos (rasgaram-se): cair não implica angústia; de fora apanha cada raio para estalar as polpas ᛝ e imagina-me voo, voo, voo.» (página 79)
O autor de Agora É Aqui não se limita aos poemas declarativos; abre mesmo hipóteses para outras leituras, e um exemplo está na página 133, onde numa nota refere uma versão de um poema cabil (Canto de amor), trazendo-nos o cruzamento entre tradição e inovação – uma marca do livro, aliás. A propósito desta referência, assinale-se que os cabilas são um povo berbere da região argelina da Cabília, bem na Cordilheira do Atlas e banhada pelo Mar Mediterrâneo. Este povo tem uma riquíssima tradição poética e musical, historicamente transmitida de forma oral e onde temas como a resistência, a ligação à terra, o exílio, a honra e o amor são frequentes.
Julio César Galán, conforme pode ler-se na contracapa de Agora É Aqui, considera Fernando Pessoa «o melhor escritor e aquele que escreveu o melhor poema». Refere-se ao poema Tabacaria. Isto traz à memória uma partilha do escritor Ruben A.: «No dia 30 de Novembro de 1935, só três pessoas sabiam em Cascais quem era Fernando Pessoa, mas o seu poema Tabacaria resistiu a tudo.» Portugal, bem o sabemos, é um país pequeno e pobre, onde Camões é conhecido pelo olho perdido, Bocage pelas anedotas e Bulhão Pato pelas amêijoas. Mas vale sempre a pena insistir. E resistir.
