Estamos todos no alto dessa prometida Fóia…

 

Intervenção do jornalista da TSF Fernando Alves na apresentação do livro Montanário, de Eduardo Jorge Duarte (ed. On y va), em Lisboa (Universidade Lusófona), a 20 de Janeiro de 2018

 

Já lá vão cinco verões, aventurei-me pelos trilhos mais velados da «serra azulada», usando uma íntima e secreta chave hertziana. Ela permitiu-me lançar ao vento uma senha que abre por vezes aos repórteres o trilho dos pastores: «do mais alto das serras vemos o mundo». Com essa chave vagabundeei peia pátria do medronho e da escrevedeira de garganta preta. Isso levou-me à sombra do diospireiro junto à casa de Maria Nunes Lourenço, a última tecedeira de linho da Serra de Monchique, e às memórias de José Rosa Sampaio, a quem devemos a história da sapataria em Monchique. Falei com caçadores, provei as compotas de dona Júlia que tinha ao lume o panelão de onde abrolhava um doce de morangos apanhados no fresco da manhã e conheci um jovem geógrafo que por causa da serra se fez aos mapas. Eduardo Duarte, o jovem geógrafo, regava com prosa límpida um blogue chamado «Terra Ruim». Indaguei sobre a ruindade com tal nobreza proclamada. Ele respondeu: «Eu e Monchique somos feitos da mesma terra.» O nome do blogue foi inspirado num conto de Manuel da Fonseca, intitulado «A Campaniça», incluído no livro Aldeia Nova. O conto que começa e acaba com uma inclemente proclamação: «Valgato e terra ruim.» Quando recordo esse episódio, o que assoma aos meus pensamentos não é a figura do Zé Tarrinha, cuja mula «caiu num barranco de piteiras e vazou os olhos». Lembro-me, sim, do Venta Larga, que tem uma sentença na ponta da língua quando alguém se perde nas redondezas: «A gente não precisa senão de saber onde põe os pés», diz ele. Do mesmo modo, o blogue dá-nos a ver uma paisagem íntima, ora rude, ora encantatória, com palavras tão justas e rigorosas que parecem medidas no crivo de um misterioso teodolito. E se nos deixamos levar, damos connosco a imaginar que dos pés do poeta geógrafo, quando caminha serra adentro, brotam os veios dos mapas. Escutei da sua boca palavras que talvez tivesse bebido em destilarias secretas, mas também em Aquilino e em Torga. Pareciam mergulhadas em melosa e no vento austral. E lembro-me de ele ter ancorado certo momento da conversa a um texto que Torga escrevera em 1977, quando esteve na Fóia. Não me lembro de lhe ter escutado a palavra meródio, ou êrvedo, mas o seu modo de anotar plantios e seus frutos denunciava antiquíssimas declinações. Ele polvilhava as palavras com o pó do pastoreio trazido e caminhos rurais da calote superior da Fóia, seu mirante. Aquela escrita em «Terra Ruim» era, continua a ser, uma sementeira. Tal como a escrita deste livro. Não me enganei quando pressenti, nesse verão de há cinco anos, que um escritor

Ganhava músculo avançando por caminho de pastores, disfarçado de blogger e de geógrafo.

«Caminhar é ler com as pernas», escreve Eduardo Jorge Duarte, a páginas tantas deste livro.

Assim sendo, escalemos, página a página, este Montanário, espanto tipográfico com que o autor sustenta aquilo a que chama «perfil topográfico» dos seus dias. A serra do Eduardo é, ainda, fonte cantante de águas soltas num chão de húmus feito também cama de palavras antiquíssimas. De entre as penedias de Monchique irrompem caminhos de água: Odiáxere, para os lados do Marmelete, procurando o seu Alvor; Seixe, ora ribeira, ora rio, como um corpo de letra diminuído ou aumentado. E se a tipografia se alimenta de fontes e outros padrões gráficos, poderia Eduardo o ter chamado a este seu livro inaugural Fontanário.

Um homem como o Eduardo sabe o chão que pisa. É com os pés no chão que ele anda pelo ar, viajando lonjuras. Mesmo que se afaste, nunca deixará as raízes. Este livro é isso, antes de mais: uma declaração solene de pertença à serra e ao seu mais alto altar, a Fóia. Tal como a anta de S. Martinho, berço onde Torga nasceu todas as manhãs, à sombra da Serra da Azinheira, avistando Alvão e Marão («seios de pedra», onde mamou a infância), a Fóia é o mastro da nave do escritor Eduardo Jorge Duarte. Daqui ele avista toda a terra conquistada a golpes de prosa pelos seus antigos, pelo fio de Ariadne que foi sendo estendido por Manuel do Nascimento, António da Silva Carriço ou António Manuel Venda, a cada passo celebrados. A Fóia é a Galafura de Eduardo Jorge Duarte. É ali que ele sobe à proa do seu «navio de penedos», não para navegar um «mar de mosto”, mas o mar do Agosto Azul de Teixeira Gomes.

Seja a Fóia, para o Eduardo, crista mais do que navio, é ainda e sempre um chão levantado, um maciço mastro de terra afrontando os deuses. Estandarte que nenhum vento agita. O monolito a que se refere o poema do Eduardo transposto para uma página deste livro. A outra pele do escritor. «A minha outra pele é dura», escreve ele. «Tem a textura de uma serra granítica, humana.» E logo adiante, duas, três páginas, duas, três fragas adiante, o fio que os mais antigos, seus percursores e mestres, foram esticando, o fio de Ariadne da tribo, ali inscrito não para reencontrar o caminho de regresso a casa, mas para indicar o raminho para a clareira secreta, a linha do tempo, a celebração da permanência. Manuel do Nascimento, António da Silva Carriço, António Manuel Venda. O primeiro foi-me revelado aquando da minha última visita a Monchique, há cinco verões. Foi um deslumbramento a descoberta desse meu desaparecido camarada de ofício (que ele foi tudo, jornalista em «O Primeiro de Janeiro», mineiro à cata de ouro em Jales, escritor, amigo de Régio e de Soeiro Pereira Gomes e do já aqui citado Manuel da Fonseca que, certa noite, em Vila Alva, perto do lugar onde o Fialho teve o fatal estremecimento, me ensinou a identificar nas vozes desatadas das mulheres que nos perfumavam a mesa de coentros e de poejo, urna improvável derivação do canto gregoriano. Isso vos devo, monchiquenses: a descoberta tardia do autor de O Aço Mudou de Têmpera. Quanto aos outros escritores vossos conterrâneos que da Fóia fizeram miradouro privilegiado, dois (António da Silva Carriço e António Manuel Venda) já me deram a honra de apresentar livros seus. É com alegria que respondo também ao chamamento de Eduardo Jorge Duarte. E trato, antes que me esqueça, de desmentir um vaticínio do próprio autor, num texto publicado no blogue «Terra Ruim» no preciso verão de 2013 em que nos conhecemos. Nesse agosto, ele ousa uma nota autobiográfica que, agora, transporta para Montanário. Numa escrita luminosa que transforma o rude penedio em redondo vocábulo, ele escancara prosa e corpo, inscrição e deriva inquietude e desígnio: «Come pouco. Dorme pouco. Pensa muito. A maior parte das vezes, mal. Raramente acerta. Falha mais vezes do que as recomendadas por Becket. Não sabe se estará a falhar melhor.» Conheço este principio da incerteza, esta dúvida que empurra para diante, que separa as águas. Pelo que pressinto, ele está a falhar melhor do que nunca, porque levou às últimas consequências um conselho de Manoel de Barros, um dos meus poetas amados. O de que o mais importante no processo de crescimento é aprender a errar bem. Abençoado poço de dúvidas e de contradições, este de que se reclama o nosso amigo. Na nota biográfica tem dois parágrafos que eu poderia roubar em precisando de cumprir a mesma empreitada: «Gosta de viajar, mas caminhar é o seu modo de transporte preferido. Pretende chegar ao fim da vida com o topo de todas as serras e os faróis de todos os promontórios da pátria gravados na lembrança. Tem livros espalhados por cada uma das divisões da casa. Se houver catástrofe, nunca ficará sozinho.» Não há reino mais apetecível do que este, e o Eduardo conquistou, desse reino, o manto e a soberania. Mas tenho de contrariar veementemente o vaticínio com que nos presenteia num dos últimos parágrafos desse agosto para trás das costas: «Não tem nenhuma obra publicada. Não sabe se virá a ter. É contra o lixo literário.»

Não devereis considerar este parágrafo. Deveis riscá-lo, como se o tojo dos caminhos o cobrisse. Não apenas porque o livro que aqui nos traz o desautoriza. Mas porque o que este livro traz não é reciclável, é puro ofício da palavra na sua mais nobre condição. Estas palavras criaram raízes no chão que ele calcorreia. São irmãs do rododendro e da giesta e levantam-se do chão com a sagacidade da águia perdigueira.

Nesse agosto, ele está diante de um trilho que entretanto começou a desbravar. É como se deitasse mão do teodolito: «Supondo que um dia», escreve ele, «supondo que um dia o destino faria dele escritor, gostaria de escrever livros como os melhores que leu até hoje.»

Meu caro Eduardo, estamos todos no alto dessa prometida Fóia. E já não temos todo o tempo do mundo para esperar. Não deixe de nos contar o que vê do mais alto da serra.

[Texto: Fernando Alves]