Whisky em vez de medronho…

Texto de José do Carmo Francisco, no jornal «Gazeta das Caldas» (18.01.19, Caldas da Rainha), disponibilizado também no seu blogue «Mesa dos Extravagantes» (https://mesaextravagantes.blogspot.com), sobre o romance Uma Noite com o Fogo, de António Manuel Venda (ed. On y va)

 

O romance Uma Noite com o Fogo… O segundo título (Serra de Monchique, num dos grandes incêndios deste século) ajuda a situar este volume de 159 páginas assinado por António Manuel Venda (n. 1968), mas o texto da contracapa explica melhor: «O grande incêndio da Serra de Monchique, em Agosto deste ano, marcado pela polémica sobre a actuação dos inúmeros meios disponibilizados para a zona, não foi uma novidade. No início deste século, a mesma serra já tinha sido invadida pelo fogo de uma forma avassaladora. Este livro, cuja primeira edição foi publicada há nove anos, conta uma das noites da tragédia em 2003, mostrando como já nessa altura o combate às chamas parecia ser algo proibido na serra.»

O pano de fundo deste conflito é antigo na sociedade portuguesa. Desde sempre existiu uma clivagem, uma divergência, uma ruptura, entre as Cidades e as Serras, a Corte e o Campo, o Urbano e o Rural. No ano de 2003 além da Serra de Monchique ardeu noventa por cento da mancha florestal de Vila de Rei, morreram perto de vinte pessoas mas o assunto não foi muito tomado a sério. A chamada «agenda política» esteva voltada para outros campos, os campos de futebol que estavam a ser inaugurados em Agosto de 2003 já a pensar no Europeu de 2004.

Voltando à relação «Urbano-Rural», na página 13 identifica-se a Cidade com o Inferno: «O inferno uma cidade… Lembrei-me disso. Lembrei-me da minha ideia do inferno, a que tinha desde a infância, uma cidade moderna, com muitos prédios, ou antes, com arranha-céus – talvez a expressão mais adequada para o caso.» Ao contrário da cidade (comboios, autocarros, bicicletas, automóveis) o campo é povoado por animais (escalavardos, gatos-bravos, raposas, coelhos, veados, texugos, javalis, aves) e por pessoas, numa relação intensa com a Natureza: «Naquela aldeia ficava a casa onde tinha vivido a minha avó, onde a minha mãe tinha nascido, onde tinha crescido, onde tinha estado até ao seu casamento.» Noutra página se anota uma relação implícita entre a serra (a aldeia) e a vida (a avó): «A minha avó a querer ir para a aldeia junto ao ribeiro, que não ficava a mais do que algumas centenas de metros se se continuasse a descer pela estrada de terra.» A avó surge como um símbolo da Terra e do seu eco-sistema, algo que foi destruído mas não morto. A ruptura, as costas voltadas, os dois mundos separados (Natureza e Cultura) estão sempre presentes, seja no ministro («o motorista para levá-lo para o remanso da capital»), seja no homem que dá ordens («Um homem que mandava nos bombeiros, três ou quatro políticos, uns técnicos de uma direcção qualquer») e, mais adiante, «dava ordens de copo de whisky na mão». Whisky em vez de medronho, a Cidade em vez do Campo, aí está (ou pode estar) o ponto da questão.

 [Texto: José do Carmo Francisco]