O sonho estelar de Rodolfo Begonha

Texto de Emanuel Dimas de Melo Pimenta, de suporte à apresentação do livro Uma Estranha Brisa pela Madrugada (ed. On y va), de Rodolfo Miguel Begonha, a 18 de Outubro de 2022, em Lisboa (Auditório Prof. José Araújo, Biblioteca Victor de Sá, Universidade Lusófona)

 

Sonho com a minha pintura e pinto o meu sonho.
Vincent van Gogh
Aqueles que sonham de dia são conhecedores de muitas coisas que escapam àqueles que apenas sonham à noite.
Edgar Allan Poe
Sempre me surpreendi com a forma como um observador comum dá muito mais credibilidade e atribui muito mais importância aos eventos vividos quando está acordado do que aos que ocorrem nos sonhos… O ser humano… é acima de tudo o joguete da sua memória.
André Breton

 

O papel de um escritor não é o de escrever uma história.

Naturalmente, a história está sempre indissoluvelmente ligada, até em termos da sua génese, à literatura.

Mas muitos podem escrever histórias e não se tratar de literatura. O papel do escritor é o de criar mundos.

É um papel mágico – a sua função é a de projetar sonhos.

Quando nos encontramos com um escritor, estamos diante de um mago, de um xamã que nos conduz a uma viagem a universos paralelos.

Não podemos esquecer de que os livros são um fabuloso artefacto alucinógeno, com um detalhe importante: sem contra-indicações.

E, ao contrário do que algumas pessoas pensam, os sonhos são vida – não estão «fora» dela. Os sonhos de Rodolfo Begonha são profundamente telúricos e mágicos – pois a palavra telúrico surge da deusa romana Tellus, deusa da terra, da vida concreta.

Calderón de la Barca, genial dramaturgo espanhol que viveu entre 1600 e 1681, dizia: «O que é a vida? Uma loucura. O que é a vida? Uma ilusão, uma sombra, uma ficção. E o maior bem é pequeno; pois toda a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são.»

Esse é o papel do escritor: criar sonhos, que são loucura, sombra, ficção. Em outras palavras: criar novos mundos que se espalham dentro de cada um de nós.

Isso apenas se tornou possível com o Milagre Grego, desde há cerca de dois mil e quinhentos anos. Não existia antes. Foi o alfabeto fonético, particularmente na sua forma grega, que tornou possível a emergência de mundos interiores aos quais chamamos vulgarmente literatura.

Essa emergência de um mundo interior não somente fez nascer a filosofia tal como a conhecemos hoje, como também criou o papel do escritor que, na criação de um novo universo, também projeta um novo ser. Na literatura, o autor torna-se num ser diferente da pessoa que escreve.

É estranho dizer isso, e a uma primeira vista pode até mesmo parecer contraditório. Mas, em outras palavras, aquele ser que elabora o mágico mundo da literatura é alguém diferente da pessoa que o escreve, sendo ela.

Ao longo da vida tive grandes amigos escritores. Jorge Medauar, José Cardoso Pires, Dinis Machado, Haroldo e Augusto de Campos, Mário Quintana, Dário de Castro Alves ou Ernesto de Melo e Castro, entre tantos outros. Quando lemos as suas obras, deparamo-nos sempre com uma grande surpresa: aquele que lemos, mesmo na diversidade da sua produção literária, é uma pessoa diferente daquela que está fisicamente à nossa frente, com quem conversamos.

Dessa forma, o verdadeiro escritor não apenas cria um mundo novo, como se recria a si próprio na forma de um outro ser, que vive naquele mundo interior, que tem vida própria, que é o autor mas que, paradoxalmente, também não o é.

Quando Rodolfo Begonha, querido amigo, me convidou para dizer algumas palavras sobre o seu primeiro romance, «Uma Estranha Brisa pela Madrugada», eu não podia prever o que estava à minha espera.

Rodolfo Miguel Dinis dos Santos Bacelar Begonha – cujo nome nos revela muito da história de Portugal – nasceu em Lisboa, em 1965. Conhecemo-nos há alguns anos durante o lançamento de outro livro. O lugar estava absolutamente cheio de pessoas. Esbarramo-nos quando nos servíamos de um copo de vinho. Praticamente não havia espaço para aonde ir. Cumprimentámo-nos e ali nasceu uma amizade surgida da nossa primeira conversa. Soube que era licenciado em Gestão de Empresas, que tinha uma especialização em Recursos Humanos e que era mestre em Sistemas Sócio-organizacionais da Atividade Económica.

Logo descobrimos que éramos duas pessoas «ilha» – cercados de livros por todos os lados.

Ainda assim, naquele primeiro momento, não imaginei que ele era um grande escritor.

Gradualmente, a sua timidez foi-se tornando cada vez mais ténue ao longo dos nossos almoços e encontros, ainda que poucos e rápidos, e das nossas conversas eletrónicas que são, na verdade, breves cartas na sua forma. Percebi rapidamente que se tratava de uma pessoa muito especial, que era um sensível e muito atento observador da alma humana.

O grande escritor estava discretamente escondido sob o manto da vida.

Mas mesmo os nossos contactos ao longo desses últimos anos não foram suficientes para suavizar a minha surpresa ao ler o seu livro.

O texto fluído, ágil, fez-me lembrar os sonhos de Aquilino Ribeiro, numa geografia completamente diferente, mas com uma tal riqueza de sons, música, imagens e palavras que me fez imaginar o trabalho de um ourives.

Rodolfo Begonha trabalha com imagens, imagens fortes, bem desenhadas e, projetando um universo para além da figura do ourives, traz-nos à mente a escola de psicologia chamada Gestalt.

É preciso compreender um pouco da Gestalt para mergulharmos mais profundamente na obra de Rodolfo Begonha.

Descoberta sensorial e cognitiva realizada por Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka em 1912, a Gestalt é uma abordagem da mente e das ações humanas, nas suas dimensões física, simbólica, biológica, lógica e sensorial através da qual compreendemos a sua definição clássica: o todo é mais do que a simples soma das partes.

A obra de Rodolfo Begonha revela-nos a essência dessa abordagem psicológica.

Um exemplo clássico da Gestalt pode ser ilustrado por uma situação precisa. Imaginemos estarmos numa praia, deitados tranquilamente, a apanhar sol, com os olhos fechados. Sentimos a suave brisa do mar, o perfume da areia, poucos sons humanos, estamos num local distante, apenas ouvimos as ondas do mar, os pássaros, estamos profundamente relaxados, sentimos o calor do Sol sobre as nossas peles. De repente, um grito. Um grito de terror. Será uma morte? Um crime? Nesse mesmo instante, tudo muda. A nossa respiração muda. O nosso coração dispara. A vida muda. Transformamo-nos subitamente. Somos outra pessoa. Tudo à nossa volta mudou repentinamente. Num átimo, a realidade se transformou completamente. Tudo mudou: o futuro, o presente e até mesmo o passado

Esse é um dos signos essenciais do livro de Rodolfo Begonha – e é preciso ser muito observador para poder recriar no texto essas situações que acontecem praticamente a cada segundo das nossas vidas.

Lembro-me de um pensamento de Kurt Koffka, um dos descobridores da Gestalt, segundo o qual a imagem, aquilo que vemos, não está na retina ou no mundo, mas na mente. Esse é outro elemento fundamental na obra de Rodolfo Begonha – trata-se de uma viagem imagética, mental.

Ou seja, Rodolfo Begonha opera a forma e o pensamento, por excelência.

Mas essa abordagem – como não poderia ser diferente – acontece de maneira muito especial.

Desde os primeiros anos da década de 1980 tenho escrito que mergulhamos gradualmente numa nova medievalidade. Não se trata, obviamente, de voltarmos ao medievo europeu. A palavra «medieval» significa «entre duas eras».

A estrutura do belo romance de Todolfo Begonha lembra-nos os espaços das catedrais Românicas. Ao contrário do movimento Gótico, quando todo o espaço era articulado num único corpo, a arquitetura Românica era constituída por blocos aparentemente independentes, que representavam uma articulação de elementos espaciais com identidades próprias, cores, luzes, que resultam num surpreendente todo. Essa articulação de blocos espaciais era o signo por excelência do mundo medieval.

Assim, o livro vai-se desenvolvendo na sua fluidez através de blocos aparentemente descontínuos, como se fossem diferentes livros dentro do livro, e como se nos alertasse, em termos não-verbais, para a aproximação de um novo mundo medieval. Essa aparente descontinuidade do texto é paradoxalmente contrariada pelo fluxo ágil que não apenas nos agarra desde a primeira página como nos traz à mente a «escrita automática» do Surrealismo.

Novamente, temos o sonho e o mundo, a vida.

A escrita automática foi uma técnica pensada pelo movimento Dada, com Tristan Tzara, logo defendida por André Breton e incorporada no Surrealismo.

Foi desse processo criativo que nasceu a obra visual de Jackson Pollock.

O encadeamento de blocos aparentemente isolados e o paradoxal fluxo veloz da escrita automática é aquilo que acontece na vida – e que Calderón de la Barca compreendeu de forma tão precisa.

Tudo isso nos releva outra característica fortemente presente nos textos de todo grande escritor: a filosofia, o amor ao conhecimento, à sabedoria. Não há uma grande obra literária que não seja também uma grande obra filosófica. É a vida que está ali, e com ela aquilo que somos, cada um de nós.

Nesse revelar de cada um de nós temos, inevitavelmente, o retrato de uma época – como se estivéssemos acompanhados de Cícero ou de Plínio o Velho. Quando os lemos, entre tantos outros, somos irmãos, filhos de uma mesma época, sentimento a que os gregos chamavam de kairos.

É um vulcão que entra em erupção. Mas esse vulcão está dentro de cada um de nós, nas nossas dúvidas, nos amores e nas paixões. Delas, não conseguimos escapar. Somos nós.

Dessa forma, a obra do Rodolfo Begonha trata insistentemente do fenómeno da consciência.

É muito interessante viver essa experiência que o autor nos propõe. Cada página é um mistério, uma diferente ampola de vida tecendo uma complexa galáxia que, vamos percebendo, constitui um universo único.

Nesse fluxo há descontinuidades, choques, muitos, e a cada elemento da diferença emerge a consciência de uma nova face daquele mundo, como se ele se fosse transformando ininterruptamente.

Rodolfo Begonha escreve sobre a consciência humana.

O genial Anatole France, que viveu entre 1844 e 1924, dizia que o escritor fala sempre sobre si próprio. E é verdade. Mas qual é esse Eu ao qual Anatole France faz referência? O Eu da pessoa física do escritor ou o Eu espiritual que cria a obra? Como o próprio Anatole France dizia, «nunca ouvimos o lado diabólico da história, pois Deus escreveu todo o livro».

Essa questão coloca-se porque apenas os grandes escritores criam outras mentes, outros mundos, vivos, que pensam de forma diferente deles próprios, e em que paradoxalmente ambos são apenas um.

O estilo – que etimologicamente surge da palavra latina stilus, instrumento romano de escrita – está claramente presente. Sabemos com quem estamos «dialogando» e reconhecemos esse autor através do desenho do pensamento.

A autoria é o desígnio desse ser interior que é a alma do escritor, que está para além do seu corpo físico – pois é no estilo que o identificamos, onde ele existe sem existir fisicamente.

Nessa viagem da criação de novos mundos, a ficção é a única espécie de literatura atemporal.

Qualquer texto sobre física, história, direito, arte, antropologia, biologia, química ou arquitetura estará inevitavelmente agarrado ao seu tempo. A filosofia ainda alcança alguma projeção no tempo. Mas a literatura, o sonho, é atemporal.

Fernando Pessoa dizia «escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida» – ele dizia isso porque se trata da emergência de uma outra vida, livre das amarras da própria existência concreta, sendo ela paradoxalmente aquele mesmo mundo, porque é esquecimento. Porque é puro sonho.

Nesse sonho, Rodolfo Begonha conduz-nos a uma viagem, em lapsos distribuídos dentro daquele universo, sob as luzes do Realismo Fantástico, ou Realismo Mágico como também é chamado – movimento literário que surgiu na Rússia na passagem para o século XX e que se instalaria fortemente no imaginário latino-americano através dos Cafés Literários de Paris e através de fabulosos nomes como Jorge Luis Borges, Juan Rulfo ou Julio Cortázar, entre outros.

E assim, logo ao início do livro, deparamo-nos com um pensamento de Lídia Jorge: «Bom mesmo seria partir para longe, atrás dos pensamentos que se diluíam a toda a velocidade pela água, pela terra e pelo espaço», de «O Vento Assobiando nas Gruas», como se se tratasse de uma confissão íntima do autor e a revelação das suas mágicas ligações espirituais ao mundo do Realismo Fantástico.

A viagem, o texto, como toda grande obra literária, diz-nos de um encontro de escritores. De pessoas. De mundos.

Esse é outro traço profundo na obra de Rodolfo Begonha: nela, o que há de mais poderoso, de mais importante, é a pessoa, o indivíduo, cada um de nós como um universo completo, riquíssimo e complexo, a ser permanentemente descoberto e respeitado.

Nesse seu arrebatador mergulho, vivemos ainda um mundo que nos revela a cada página uma história da vida privada e uma reflexão sobre a história das ideias.

E como se tratássemos de um concreto mundo paralelo, cada personagem é uma pessoa, viva e livre numa outra dimensão. Não está ali apenas para falar, não é a máscara etrusca «para soar» no palco de um teatro. Vai para muito além disso. Aqui, o teatro é a vida, como ensinava Shakespeare.

E nesse mundo de apagamentos e ressurgimentos, de cortes e surpresas, como se fosse não uma história mas o simulacro vivo de uma vida real, tudo também se articula de acordo com a Teoria dos Jogos. de John von Newmann e Oskar Morkenstern: jogos de soma zero e de soma não-zero que constroem uma dinâmica quase fractal.

Muito da natureza humana está no livro de Rodolfo Begonha, nesse misterioso e enigmático mundo que vai se revelando dentro de nós ao longo da sua imparável leitura. O erro, a Teoria do Erro, a Teoria da Verdade, o amor, o crime – tudo está lá.

Nessa teia da vida emergem arquétipos, mitos, sonhos mitológicos – tudo num lirismo tão característico da alma portuguesa.

Tudo enfeixado naquilo que a literatura é: iluminação, descoberta, autoconhecimento, sonho.

O fim dessa viagem parece transportar-nos para o fim de muitos filmes de Billy Wilder, que dizia: «Tens de ter um sonho para que te possas levantar pela manhã.»

A estrutura do livro, distribuída em páginas que são espécies de átomos, partículas de poeira que compõem a vida, fez-me lembrar Carl Sagan quando disse: «O nitrogénio no nosso ADN, o cálcio nos nossos dentes, o ferro no nosso sangue, o carbono nas nossas tartes de maçã foram feitos nos interiores das estrelas em colapso. Nós somos feitos de matéria estelar.»

De facto, 98% dos nossos corpos são constituídos por apenas seis elementos químicos: carbono, hidrogénio, nitrogénio, oxigénio, fósforo e enxofre – exatamente a composição química das estrelas.

Por outro lado, temos noventa e oito elementos químicos presentes naturalmente no nosso planeta.

Nesse sentido, somos todos extraterrestres.

Há cinco anos, em 2017, os astrónomos do programa Sloan Digital Sky Survey, da Fundação Sloan, no Novo México, fizeram observações astronómicas cobrindo cerca de cento e cinquenta mil estrelas, detetando a sua composição química. A conclusão confirmou o pensamento do célebre astrónomo americano: somos feitos de matéria estelar.

A estrutura do livro de Rodolfo Begonha acontece de forma muito semelhante à agregação da poeira estelar, onde – tal como as suas páginas – as partículas aparentemente independentes se agregam criando formas surpreendentes.

Somos confrontados com elementos aparentemente desconexos, distribuídos num aparente caos, que se associam de acordo com a nossa ordem cerebral, seguindo aquilo a que chamamos conhecimento, processo que designa a nossa memória enquanto permanente elaboração, formando as fabulosas imagens que no espaço identificamos como nebulosas.

Carl Sagan dizia: «O Cosmos está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar. Somos uma forma de o Universo se conhecer a si próprio.»

O livro «Uma Estranha Brisa pela Madrugada», de Rodolfo Begonha, é um sonho que se sonha a si próprio, como poeira cósmica, como matéria estelar que é o humano.

 

[Texto: Emanuel Dimas de Melo Pimenta; Locarno, 2022]

[Foto: Maria Ramires]